13 janeiro 2026

denise levertov / escadaria antiga

  
 
Passos como água escavam
as amplas curvas de pedra
século a século
subindo, descendo.
Quem pode dizer
se o último a trepar a escadaria
em viagem
descendente ou ascendente
está?
 
 
 
denise levertov
este grande não-saber
trad. andreia c. faria e bruno m. silva
flâneur
2021




12 janeiro 2026

maria gabriela llansol / o começo de um livro é precioso

  
247
 
A rapariga contava. Eu, que por acaso a ouvia, escrevi:
Conflito à noite, conflito de manhã, seu amor resiste.
Estranheza à noite, estranheza de manhã, seu amor
Não desiste. Não havia conflito que o extraísse. Octávia,
Que a ouvia por motivos profissionais, perguntava: Quebras
De tensão? Azia que lhe corre pelos músculos das costas?
Picadas breves no coração? Dores no peito? A tudo dizia
Que sim. Faz amor regularmente? Eu, que por acaso a
Ouvia, escrevi: Há uma espécie de informação longínqua
Que lhe enche a relação de afrontas e contradições. Há, sim,
Um além-afecto desnudo por atingir. E saí, nada havendo
Para dizer. Curioso, como a arte eficaz de Octávia me
Deixa irónica. Não me causa um riso tónico, nem as suas
Ervas (que admiro) me deixam ser franca______________
 
 
 
maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003
 



11 janeiro 2026

álvaro de campos / a liberdade, sim, a liberdade!

  
 
A liberdade, sim, a liberdade!
A verdadeira liberdade!
Pensar sem desejos nem convicções.
Ser dono de si mesmo sem influência de romances!
Existir sem Freud nem aeroplanos,
Sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço!
 
A liberdade do vagar, do pensamento são, do amor às coisas naturais
A liberdade de amar a moral que é preciso dar à vida!
Como o luar quando as nuvens abrem
A grande liberdade cristã da minha infância que rezava
Estende de repente sobre a terra inteira o seu manto de prata para mim...
A liberdade, a lucidez, o raciocínio coerente,
A noção jurídica da alma dos outros como humana,
A alegria de ter estas coisas, e poder outra vez
Gozar os campos sem referência a coisa nenhuma
E beber água como se fosse todos os vinhos do mundo!
 
Passos todos passinhos de criança...
Sorriso da velha bondosa...
Apertar da mão do amigo [sério?]...
Que vida que tem sido a minha!
Quanto tempo de espera no apeadeiro!
Quanto viver pintado em impresso da vida!
 
Ah, tenho uma sede sã. Dêem-me a liberdade,
Dêem-ma no púcaro velho de ao pé do pote
Da casa do campo da minha velha infância...
Eu bebia e ele chiava,
Eu era fresco e ele era fresco,
E como eu não tinha nada que me ralasse, era livre.
Que é do púcaro e da inocência?
Que é de quem eu deveria ter sido?
E salvo este desejo de liberdade e de bem e de ar, que é de mim?
 
17-8-1930
 
 
 
álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993




10 janeiro 2026

kahlil gibran / sombras



 

Uma raposa contemplou a sua sombra ao nascer do Sol e disse: “Hoje, quero comer um camelo ao almoço.”
 
E passou a manhã inteira à procura de camelos. Mas, ao meio-dia, olhou de novo para a sombra que projectava, e disse: “Um rato chega-me.”
 
 
kahlil gibran
o livro da vida
tradução alcinda marinho
albatroz
2018


 

09 janeiro 2026

primo levi / via cigna

  
 
Nesta cidade não há rua mais batida.
Está nevoeiro e é de noite: as sombras nos passeios
Que o clarão dos farolins atravessa
Como se a fosse diluir no nada, em grumos
De nada, são as dos nossos semelhantes.
Talvez já não exista o sol.
Talvez seja escuro para sempre: no entanto
Noutras noites sorriam as Plêiades.
Talvez seja esta a eternidade que nos aguarda:
Não o colo do pai, mas embraiagem,
Travão, embraiagem, engatar a primeira.
Talvez a eternidade sejam os semáforos.
Talvez fosse melhor consumir a vida
Numa única noite, como o fogo.
 
2 de Fevereiro, 1973
 
 
 
primo levi
a uma hora incerta
trad. rui miguel ribeiro
edições do saguão
2024
 




08 janeiro 2026

zbigniew herbert / nunca de ti

  
 
Nunca me atrevo a falar de ti
vasto céu do meu bairro
nem de vós telhados que detendes as cascatas de ar
belos telhados felpudos cabelos das nossas casas
nem de vós chaminés laboratórios de tristeza
abandonadas pela Lua pescoços esticados
nem de vós janelas abertas-fechadas
que rebentais quando morremos além-mar
 
Nem sequer consigo descrever a casa
que conhece todas as minhas fugas e regressos
apesar de pequena não sai debaixo das pálpebras fechadas
nada conseguirá devolver-me o cheiro do reposteiro verde
nem o ranger das escadas por onde levo a lamparina acesa
nem a folhagem do portão
 
Em verdade gostaria de escrever sobre o puxador do portão
                                                                           da casa
sobre o seu toque áspero e rangido amigável
e mesmo sabendo muito sobre ele
repito tão-só uma ladainha de palavras comum cruel
Cabem tantos sentimentos entre dois batimentos cardíacos
tantos objectos podem ser acolhidos entre duas mãos
 
Não vos admireis que não saibamos descrever o mundo
e que só tratemos as coisas pelos nomes com ternura
 
 
 
zbigniew herbert 
hermes, o cão e a estrela (1957)
poesia quase toda
tradução de teresa fernandes swiatkiewicz
cavalo de ferro
2024
 




07 janeiro 2026

rené char / folhas de hipno

  
117
 
Claude diz-me: «As mulheres são as rainhas do absurdo. Quanto mais um homem se compromete com elas, mais elas complicam esse compromisso. Desde o dia em que me tornei «partisan» nunca mais me senti infeliz nem desiludido…»
 
Nunca será tarde para ensinar a Claude que não se talha a nossa vida sem nos cortarmos.
 
 
         
rené char
furor e mistério
folhas de hipno (1943-1944)
trad. margarida vale de gato
relógio d’ água
2000





06 janeiro 2026

roberto juarroz / não se trata de falar

  
Não se trata de falar,
nem tão-pouco de calar:
trata-se de abrir algo
entre a palavra e o silêncio.
 
Talvez quando tudo tenha decorrido,
também a palavra e o silêncio,
fique essa zona aberta
como uma esperança andando para trás.
 
E talvez esse signo invertido
constitua um toque de atenção
para este mutismo ilimitado
onde palpavelmente nos afundamos.
 
 
 
roberto juarroz
a árvore derrubada pelos frutos
trad. rui caeiro, duarte pereira e diogo vaz pinto
língua morta
2018





05 janeiro 2026

josé emílio pacheco / o novo ano

  
 
O novo ano não bate à porta, não cumprimenta ninguém, fita-nos com a arrogância de quem nos tem nas mãos. Troça dos nossos intentos de cativá-lo. Pulverizará as boas intenções. Tem gozo no seu poder, sabe-o efémero, conhece as desgraças que sem equidade distribuirá, como sempre.
Na sua jurisdição de vida e morte, o novo ano arrasará tudo, não deixando sequer uma flor seca para o sentimentalismo da lembrança. Atropela com soberba de vencedor a nossa frágil dignidade, nós que o inventámos e que para ele erguemos um altar.
 
 
 
josé emílio pacheco
desde entonces (1975-1978)
a árvore tocada pelo raio
antologia poética
trad. miguel filipe mochila
maldoror
2024




 

04 janeiro 2026

elio pecora / quem poderá jamais

  
 
Quem poderá jamais dar-me aquele bem
que esperava como um alimento?
O que me acontecerá agora que a uma casca vazia
assemelho o meu dia, a minha sorte?
Não vejo, não escuto, enveredo
por um longo caminho, sem mapa,
e não deixo sinais para voltar:
ao encontro da escuridão avanço, vindo da escuridão.
 
 
elio pecora
poemas escolhidos
recinto de amor (1992)
tradução de simoneta neto
quasi
2008




 

03 janeiro 2026

wallace stevens / uma velha cristã de tom altivo

 



 

 
A poesia é a ficção suprema, madame.
Tome a lei moral e faça dela uma nave
E da nave construa o céu assombrado. Assim,
A consciência é convertida em palmas,
Como cítaras de vento ansiando por hinos.
Em princípio concordamos. É claro. Mas tome
A lei oposta e faça um peristilo,
E do peristilo projecte uma mascarada
Para lá dos planetas. Assim, a nossa indecência,
Não expurgada por epitáfio, praticada por fim,
É igualmente convertida em palmas,
Meneando-se como saxofones. E palma por palma,
Madame, estamos onde começámos. Permita,
Portanto, que na cena planetária
Os seus flageladores desafectos, bem-comidos,
Em parada, batendo nas barrigas entontecidas,
Orgulhosos de tais novidades do sublime,
Tais trran-tan-tan e trrum-tum-tum.
Possam, meramente possam, madame, arrancar de
                                                           si mesmos
Uma jovial algazarra entre as esferas.
Isto fará crispar as viúvas. Mas coisas fictícias
Piscam quando querem. Piscam mais quando as
                                               viúvas crispam.
 
 
 
wallace stevens
ficção suprema
trad. luísa maria lucas queiroz de campos
assírrio & alvim
1991



02 janeiro 2026

rui diniz / enquanto escrevo

  
 
ENQUANTO ESCREVO   
não me deprimo:
é toda a vontade de escrever
que me resta
e às vezes
se tenho sorte
o achado de uma
imagem feliz
ou de um dito
inteligente
«enviado de algum senhor…»
desmonto do cavalo suado
e matam-me
sem razão aparente
brinquei demasiado com a vida
a infância acabou
e eu continuei a crer nas
fadas nas faldas dos bosques
e misteriosas princesas
que me esperam
em castelos silenciosos
«o mar ali era de um
azul ferrete e enchia-se
de carneiros sobrados
a alguma écloga»
no fundo não há ninguém
são inúteis as janelas
e os postigos
faz-se café para os ratos
mas o mais absurdo
são os espelhos
visto o sobretudo
de mágoa, ponho a solidão
como um chapéu
e hóspede de mim
como uma ténia
saio para
as praias da desolação.
 
 
 
rui diniz
ossos de sépia
noemas
língua morta
2022





01 janeiro 2026

josé gomes ferreira / porta que se rasga



 

LI
 
Porta que se rasga
nas pedras.
 
E pé ante pé
por degraus magoados
desço à Caverna
onde me encontro de súbito diante dum ser que desconheço
a falar com a minha boca
a linguagem do sabor das fontes
na Solidão do Começo.
 
Mas eu prefiro a outra,
a Solidão
insurrecta das sementes
– onde talvez um dia as flores abrirão
para o destino de bandeiras quentes.
 
 
 
josé gomes ferreira
poesia IV
encruzilhada (1949-1950)
portugália
1971