01 maio 2012
30 abril 2012
josé sebag / o planeta precário
a noite cerrou todas as janelas
alastrou um império de improviso para os
cães sem nome sem dono e atirou
longamente o seu queixo de toneladas até
à mancha
espalmada do rio
e à sua maneira de nos insultar
a tristonha envergadura da sua queixa
as palavras
que usamos
têm a idade que aparentam
atingidas pela velhice ou pelo descrédito
num alvoroço se oferecem ao abismo
despenhadas rolam
e se confundem com a lava
com a espuma tensa do tempo ainda intacto
para de novo nascerem noutra pátria
mais respirável
ternamente povoar o indómito e triste
hálito
do mais apavorado e generosos bicho
À hora de morrer vai ser necessário
imitar a navegação tumultuosa e resignada
das palavras.
Entre elas e o poeta
um segredo brinca
religioso
trémulo
e imprudente
um segredo amoroso e repugnante
Tu, que de há tanto e tão bem o conheces
melhor te será conservá-lo escondido
até ao momento da surpresa
que a morte branca do medo exige
Cada um de nós, deve ser, não a lei, mas
o galho inopinado e ímpar
o plano imediato da evasão
alucinado e lúcido
Cada um de nós deve ser o momento
de recusar férias à ferida
e de mandar matar todos os parafusos
destronar todas as molas reais
ou irreais
da
respiração artificial
pendurada do tecto
a tua ausência informa: é madrugada
bela notícia confirmada
o céu está menos preto
busto ou explanada
mas só de sombra
a solidão redonda
desta vida parada
não é flor nem bomba
nem página virada
nem a hecatombe
fria e ferial
da charada final
e indesejada !
Falta o indulto especial da tua mão
e tu a dizeres-me, aguda e de assalto:
"A solidão
é nada."
a cabeça começa por fazer dueto com o teu relógio
crepita sobre a almofada
parece mesmo um gatilho em desuso
uma flecha detida por um hábito lívido
são já os primeiros rumores estremunhados
no tablado das coisas
para onde a luz, como tu, atira os braços
como tu um beijo
enorme e distraída oficina conjugal
é agora a infalível
serpente inofensiva e doméstica do sol
monstro diluviano de capoeira
a farejar
com um aspecto acabrunhado de enfermeiro despedido
a fresta que permita o carnaval
está então na hora?
a cabotagem entre portos diminuídos
tenazmente em circuito cinzento
o tráfego livre dos gestos, enrugado apenas
pelo milagre de um ou outro vizinho mais mumificado
se levar pela mão a cara de brinquedo do filho
a quem acabam por perdoar por não ter ainda convite
e é só entrar
no solfejo nauseante
no cerimonial mercantilista do braço ao peito
josé sebag
surrealismo abjeccionismo
antologia organizada por mário cesariny
edições salamandra
1992
28 abril 2012
clarice lispector / já escondi um amor com medo de perdê-lo
Já escondi um AMOR com medo de perdê-lo, já perdi um AMOR por
escondê-lo.
Já segurei nas mãos de alguém por medo, já tive tanto medo, ao ponto de
nem sentir minhas mãos.
Já expulsei pessoas que amava de minha vida, já me arrependi por isso.
Já passei noites chorando até pegar no sono, já fui dormir tão feliz,
ao ponto de nem conseguir fechar os olhos.
Já acreditei em amores perfeitos, já descobri que eles não existem.
Já amei pessoas que me decepcionaram, já decepcionei pessoas que me
amaram.
Já passei horas na frente do espelho tentando descobrir quem sou, já
tive tanta certeza de mim, ao ponto de querer sumir.
Já menti e me arrependi depois, já falei a verdade e também me
arrependi.
Já fingi não dar importância às pessoas que amava, para mais tarde
chorar quieta em meu canto.
Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir.
Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar
nas que realmente valiam.
Já tive crises de riso quando não podia.
Já quebrei pratos, copos e vasos, de raiva.
Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse.
Já gritei quando deveria calar, já calei quando deveria gritar.
Muitas vezes deixei de falar o que penso para agradar uns, outras vezes
falei o que não pensava para magoar outros.
Já fingi ser o que não sou para agradar uns, já fingi ser o que não sou
para desagradar outros.
Já contei piadas e mais piadas sem graça, apenas para ver um amigo
feliz.
Já inventei histórias com final feliz para dar esperança a quem
precisava.
Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade... Já tive medo
do escuro, hoje no escuro "me acho, me agacho, fico ali".
Já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui
inúmeras vezes achando que não cairia mais.
Já liguei para quem não queria apenas para não ligar para quem
realmente queria.
Já corri atrás de um carro, por ele levar embora, quem eu amava.
Já chamei pela mamãe no meio da noite fugindo de um pesadelo. Mas ela
não apareceu e foi um pesadelo maior ainda.
Já chamei pessoas próximas de "amigo" e descobri que não
eram... Algumas pessoas nunca precisei
chamar de nada e sempre foram e serão especiais para mim.
Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre.
Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração!
Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque
sinceramente sou diferente!
Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com
os pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra SEMPRE!
Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais
poderosas, das ideias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos
sentimentos mais fortes.
Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:
- E daí? EU ADORO VOAR!
clarice lispector
27 abril 2012
antónio josé forte / libertação
Descerão por paredes sangrentas
e subirão do asfalto
ganindo com um prego na língua
com os pulsos atados às patas
sobre pulmões raivosos em barcos de esterco
e não olharão nem para baixo nem para o alto
mas para a frente
para o horizonte de fatias vermelhas
e para trás
para os afogados sem mar sem terra natal sem paisagens marinhas
cada um com um buraco em seu peito
esguichando palavras estridentes
descerão atravessando gargantas
e subirão pela espinha a golpes de jejum
descerão empurrando palavras
transportando-as ao pescoço como cintos de salvação
abrindo crateras nas cabeças queridas
e olhos nos olhos dos aflitos
subirão do asfalto
transparentes e feridos
com os olhos nas mãos
a cabeça no sangue
chegarão aos pares ligados pela boca
com um estandarte negro seguro nos dentes
e descerão sempre cada vez mais e cada vez de mais alto
até chegar à orla do inferno chorarem as últimas lágrimas e par-
[ tirem de vez.
antónio josé forte
40 noites de insónia de fogo de dentes numa girândola
implacável e outros poemas
lisboa
1958
26 abril 2012
ángel campos pámpano / a lição
que eu não esqueça nunca
a 1uz que me ensinaste
a que ascendia do fundo
da tua antiga inocência
e transbordava
o espaço colocado
entre tuas coisas e as minhas
que nunca esqueça
certas palavras tuas
que falavam da tua gente
dos dias de cinema
do pai
da guerra
de duas mulheres sozinhas tanto tempo
é essa zona intacta da tua voz
onde não chego
tua presença e a minha
o mundo que respiras
o desse menino
sentado entre as pedras
atentos os seus olhos
ao brilho dos teus olhos
hoje a tua voz contida
une-me mais
às palavras que não percebo
a leve passagem da tua voz
fura o ar e vibra
expande-se
mais aquém da luz que antecede
o rosto dessa infância sem testemunhas
emudecia sempre quando menino
porém se tu falavas nascia outro silêncio
ángel campos pámpano
traduçáo de antónio cândido franco
diversos nr. 15
2009
25 abril 2012
sophia de mello breyner andresen / como uma flor vermelha
À sua passagem a noite é vermelha
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.
Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.
Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.
sophia de mello breyner andresen
obra poética I
caminho
1999
24 abril 2012
joão rui de sousa / a hipérbole na cidade
… … …
Rossio. Rossio mil e um, mil e dois, mil e três...
Rossio multímoda da Lisboa-viela.
Lisboa aquecida. Lisboa despida.
Lisboa-viagem numa caravela.
Barcos de papel à tona d’água.
Cestos de papel à vista, flor.
Papel nos bolsos, papel nas arcas.
Papéis-meninas a vender amor.
Polícia artefacto (vendedor vem comigo).
Relógio partido (parado ou não).
Rodelas de ginja encantada e um vidro
(Estão todos bebidos, caídos, perdidos,
irmão).
Gravatas sem vida (baratas, presentes).
Marinheiro por detrás (redondo, redondo).
Magalas com sorte, magalas doentes.
Galegos despidos na frente do mundo.
Rossio. Proibido parar, proibido avançar.
Proibido fugir, proibido fumar.
Proibido sorrir proibido olhar.
Proibido cantar,
proibido
cantar.
*
Sou pobre. Medito em tudo a meu modo,
Medito em porto (tecido, conteúdo).
Medito em seios (sabor e olfacto).
Medito em tudo.
Há europas desnudas espalhadas por coxas.
Há repúblicas doridas a pernoitar.
Há montanhas já fartas dos prazeres iníquos.
Há rios imaginários do amor do universo.
Geográfica e nossa é a condição de pobres.
Sobretudo em Rossio, Rossio mil e três.
Com sorrisos nos lábios e
letreiros às costas,
cantando alegremente:
Estamos nus e gramamos.
Total a iniquidade de que estamos seguros.
Total a recompensa de mijo e areia.
Total o que somos, total o que fomos.
Total de pensarmos silêncio e candeia.
Total de mistela e de vão sacramento.
Total de miséria que um verme constrói.
Totais Descobertas... Eles lá o sabiam
explicar, se pudessem, como isso foi.
Rossio, meu amigo,
meu doidamente doido pelo chão.
Cais de Sodré vem comigo
Decifrar-me a canção:
Mil e dois, mil e três.
Mil e dois, mil e três.
… … …
A fome é uma mistura de carne
(pedras negras, .pedras brancas).
Desenhos? O tempo os desfaz.
Pombal restaurou. Pombal afinou.
Só não acabou o medo deste século.
Lisboa — a grande nau que não havia
no pensarmos sermos o que somos:
uma onda e outra sobre a outra onda,
feitas, de mil olhos, serpentinas.
Lisboa ou claro Tejo da ilusão.
(Funileiro à porta ou estar sentado.)
Somos o que somos: podres e serenos
na serena paz de fracassados.
Se os sinos da tua aldeia — Largo
de S. Carlos — falassem outra vez,
como diriam hoje agora:
Rossio mil e três?
Serrano e impossível.
Severo e impotente.
Cansado, impassível
grão podre
doente.
*
Envelope aceso para enviar notícias,
novas muito antigas deste tempo.
Capitão viaja. Comandante à âncora.
Viva a morte, a noite e o desespero.
São estas as cordas de um cartaz turístico.
São estas as luzes dum assassinado.
Estrangeiro acena. E canta e grita:
Pobre noite, camarada.
… … …
Temos de coabitar.
O sonho dilata-se no sonho.
Ficaremos pobres como dantes?
Ficaremos cegos?
Estrangulem-me se quiserem.
joão rui de sousa
a hipérbole na cidade
o surrealismo na poesia portuguesa
org. de natália correia
frenesi
2002
23 abril 2012
josé emílio pacheco / alta traição
Não amo a minha pátria.
O seu fulgor abstracto
não se deixa agarrar.
Mas (ainda que soe mal)
daria a vida
por dez lugares seus,
certa gente,
portos, bosques, desertos, fortalezas,
uma cidade desfeita, cinzenta, monstruosa,
várias figuras da sua história,
montanhas
- e três ou quatro rios.
josé emílio pacheco
tarde o temprano (poemas 1958-2000)
fondo de cultura económica
edição de ana clavel, 3ª edição
picacho-ajusco
2004
(versão de luís filipe parrado
22 abril 2012
benjamin péret / a desonra dos poetas
[…] O poeta luta contra toda a espécie de opressão:
em primeiro lugar a do homem pelo homem e a opressão do seu pensamento pelos
dogmas religiosos, filosóficos ou sociais. Ele luta para que o homem atinja
definitivamente um conhecimento perfectível de si próprio e do Universo. Não se
conclua disto que o poeta deseja pôr a sua poesia ao serviço de uma acção
política, mesmo revolucionária. Mas a sua qualidade de poeta faz dele um
revolucionário que deve combater em todos os terrenos: no da poesia pelos meios
que a esta são idóneos e no terreno da acção social sem jamais confundir os
dois campos de acção, sob pena de estabelecer a confusão que importa dissipar
e, por conseguinte, de deixar de ser poeta, isto é, revolucionário.
benjamin péret
a desonra dos poetas
o surrealismo na poesia
portuguesa
org. de natália correia
frenesi
2002
21 abril 2012
paula almada-negreiros / canção
Longe, muito longe onde as minhas mãos serão cúpulas para
[abrigar corujas
onde meus olhos asas de águia para abrir livros antigos
onde meus braços serão novas árvores daqui a
milhões de anos para uma nova floresta virgem
onde minha cabeça será o campanário duma igreja aldeã
antiquíssima para os homens do
centésimo vigésimo quinto
[século depois de mim
onde minha boca será a gruta do lado de fora da Terra
[do lado de dentro do mar
onde se esconderão traineiras navegadas por sereias
de meus braços algas do princípio do mundo
onde minha cama será o barco para navegar em toda a Terra
[cinzenta
com dunas que taparão árvores de deserto
onde num mundo em que EU se diz ALFABETO NÚMERO
asteróide com um número
incapaz de se ler
paula almada-negreiros
ângulo poente
o surrealismo na poesia
portuguesa
org. de natália correia
frenesi
2002
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