24 março 2015

como se fosse na mesa dum café nos anos 70


Anos 70, muito jovem ainda. Partilhávamos os truques da resistência à ditadura fascista, espreitávamos o mundo pelas brechas do grande muro do fado, de Fátima e do futebol. Fazíamos o que podíamos para ler as grandes obras da literatura universal e conhecer o mundo oculto da ideologia. Comíamos croissants inebriados pelo cheiro da tinta no stencil denunciador dos crimes do fascismo. O pão quente era de madrugada à porta duma padaria de bairro. Líamos Herberto Helder, íamos ao Cascais Jazz, ouvíamos a grande música e tínhamos a certeza firme de que este país um dia seria melhor; limpávamo-nos do bafio das sacristias e livrávamo-nos da culpa da miséria. Nesse tempo as livrarias eram sítios onde se vendiam livros e os livros eram mesmo livros, os escritores mesmo escritores, os poetas mesmo poetas. E, pasme-se, os jornais eram mesmos  jornais  e os jornalistas eram mesmo jornalistas. Nesse tempo, Cultura significava instrução, saber e estudo.

Lembro-me da sensação de modernidade, de ar puro, e do modo tão novo de querermos ser portugueses assim, sentirmo-nos assim portugueses dessa maneira tão livre e tão criativa que se entranhava em nós depois de lermos “Os passos em volta”.  

Hoje, senti-me privilegiado por ter sido contemporâneo dum ser tão imenso, de ter podido conhecer a sua obra  no tempo exacto da sua criação e de poder testemunhar que, por causa dela, a minha geração, e muitas outras, trouxe a este país homens e mulheres muito melhores, muito mais justos e muito mais livres, numa maré libertadora que inundará com certeza a nossa eternidade como povo.

Sim, a grande revolução do século XX português foi a Poesia de Herberto Helder.     



gil t. sousa 



2 comentários:

Vento disse...

homenagem linda e justa
gostei muito
abraço

Kléber Andrade disse...

Muito bom!a mim parece que tudo antes era mais interessante!