09 dezembro 2021

william carlos williams / chegada

 
 
 
E, todavia, chegas
dás por ti a desatar-lhe
o vestido
em alheios aposentos –
sentes que o outono
deixa cair as suas folhas de seda e linho
junto aos seus tornozelos.
Falso é o brilho do corpo que emerge
e se contorce
como o vento do inverno…!
 
 
 
william carlos williams
antologia breve
tradução josé agostinho baptista
assírio & alvim
1993




 

08 dezembro 2021

sharon olds / domingo à noite na cidade

 
 
De mãos dadas, estendemo-nos na cama,
as nossas pernas compridas cruzadas como asas
dobradas, os nossos pés compridos tocando aos pés
da cama na sombra, o alçado gravado como
lápide com uvas. O teu cabelo em desalinho, escuro
como uma avelã negra, frisado como rebentos
de videiras. A tua mão direita na minha mão
direita. A minha mão esquerda na tua esquerda.
Braços entrelaçados como patinadores, estendemo-nos
sob a pintura de uma paisagem de campo: as silvas
negras e difusas como fumo, as árvores
erguendo os cinzentos esqueletos de peixe,
e ao centro, sobre nós,
o calmo lago
mudo como se fora eterno.
 
 
 
sharon olds
satanás diz
trad. margarida vale de gato
antígona
2004




07 dezembro 2021

samuel beckett / vêm

 
 
 
vêm
diferentes e parecidas
com cada uma é diferente e parecido
com cada uma a ausência de amor é diferente
com cada uma a ausência de amor é parecida
 
 
 
samuel beckett
trad. miguel esteves cardoso
as escadas não têm degraus 3
livros cotovia
março 1990





06 dezembro 2021

charles simic / livro de história

 
 
 
Um miúdo encontrou as suas páginas soltas
Numa rua movimentada
Deixou de jogar à bola
Para correr atrás delas.
 
Elas escaparam-se das suas mãos
Voando como borboletas.
Apenas pôde entrever
Alguns nomes, uma data.
 
Nos arredores o vento
Fê-las subir.
Foram arrastadas sobre o depósito de pneus usados
Em direcção ao rio cinzento,
 
Onde afogam os gatinhos –
E a barcaça desliza,
Aquela que crismaram Vitória
De onde um aleijado acena.
 
 
 
charles simic
trad. josé alberto oliveira
rosa do mundo
2001 poemas para o futuro
assírio & alvim
2001




05 dezembro 2021

federico garcia lorca / ao ouvido de uma jovem

 
 
Não quis.
Não quis dizer-te nada.
 
Vi em teus olhos
duas arvorezinhas loucas.
De brisa, de riso e de ouro.
Meneavam-se.
 
Não quis.
Não quis dizer-te nada.
 
 
 
federico garcia lorca
transversões
poemas reescritos em português
trad. de zetho cunha gonçalves
contracapa
2021




04 dezembro 2021

franz kafka / diários

 
 
1913, 20 de dezembro
 
 
Nenhuma carta.
 
O efeito de um rosto pacífico, de um discurso calmo, especialmente quando realizado por uma pessoa desconhecida que ainda não observámos. A voz de Deus vinda de uma boca humana.
 
Um velho andava pelas ruas no nevoeiro numa noite de Inverno. Fazia um frio de gelar. As ruas estavam desertas. Ninguém passou perto dele, só de vez em quando é que ele via à distância, meio escondido no nevoeiro, um polícia alto ou uma mulher com peles ou xailes. Não havia nada que o perturbasse, ele apenas queria visitar um amigo a casa de quem não ia há muito tempo e que tinha acabado de lhe mandar uma criada para o convidar a ir lá.
 
Passava muito da meia-noite quando soou um bater leve na porta do comerciante Messner. Não foi necessário acordá-lo, ele só adormeceu pela manhã, e até essa altura ele costumava ficar deitado na cama de barriga para baixo, com a cara enfiada na almofada, os braços em arco e as mãos postas sobre a cabeça. Ele tinha ouvido logo a pancadas na porta. «Quem é?», perguntou. Um murmúrio indistinto, mais leve do que as pancadas, foi a resposta. «A porta está aberta», disse ele e acendeu a luz eléctrica. Uma mulher delicada, pequena, envolta num grande xaile cinzento, entrou no quarto.



franz kafka
diários (1910-1923)
trad. maria adélia silva melo
difel
1986




03 dezembro 2021

nathalie handal / três poemas para gaza

 
 
Gaza
Um dia numa faixa insignificante
buracos negros engoliram corações
e uma criança disse a outra
não respires
sempre que o vento da noite
deixar de ser uma terra de sonhos
 
 
Naturais de Gaza
Morri antes de viver
vivi em tempos numa campa
dizem-me agora que é pequena
para acomodar todas as minhas mortes
 
 
Pezinhos
Uma mãe olha para outra –
um mar de pequenos corpos
queimados ou decapitados
à sua volta –
e pergunta,
Como faremos o luto disto?
 
 
 
nathalie handal
afagando a face de lorca
uma antologia
trad. francisco josé craveiro de carvalho
companhia das ilhas
2020




02 dezembro 2021

peter sandelin / no comboio

 
 
Creio
que a neve não neva para cima
porque ali não há pessoas que a esperem
nem tão pouco plataformas de estação.
 
Creio
que as árvores o descobriram
e por isso se agarraram rapidamente à terra
com os seus braço amarelos.
 
e creio
que eu penso como uma criança
para me aproximar também de algo.
 
 
          De lysande och döda, 1953
 
 
 
peter sandelin
o mundo adormecido espera impaciente
antologia de poesia finlandesa
trad. de amadeu baptista
contracapa
2021




01 dezembro 2021

henri michaux / a simplicidade

 
 
O que sobretudo tem faltado à minha vida até agora é a simplicidade. Começo a mudar a pouco e pouco.
 
Por exemplo, actualmente saio sempre de casa com a minha cama e, quando uma mulher me apetece, agarro nela e deito-me com ela imediatamente.
 
Se tem as orelhas ou o nariz grandes e feios, tiro-lhos, justamente com as roupas e meto-os debaixo da cama, para ela os poder recuperar à saída; só conservo o que me apetece.
 
Se a sua roupa interior está a precisar de ser mudada, mudo-a imediatamente. Será a minha prenda. No entanto, se vejo uma outra mulher mais apetecível a passar, peço desculpas à primeira e suprimo-a imediatamente.
 
As pessoas que me conhecem garantem que eu não sou capaz de fazer o que estou a dizer, que não tenho temperamento para isso. Eu também achava que não, mas isso era porque eu não fazia tudo como me apetecia.
 
Agora, tenho sempre belas tardes. (De manhã, trabalho.)
 
 
 
henri michaux
as minhas propriedades (1929)
antologia
trad. margarida vale de gato
relógio d´água
1999




 

30 novembro 2021

walt whitman / por caminhos não percorridos

  
Por caminhos não percorridos,
Pela vegetação das margens das lagunas
Fugindo da ostensiva vida,
De todas as normas já promulgadas, dos prazeres, benefícios,
          convenções,
Tudo isso com que, demasiado tempo, alimentei a minha
          alma,
Convencido enfim de que as normas ainda não promulgadas,
          convencido de que a minha alma,
De que a alma do homem por quem falo descobre a alegria nos
          companheiros,
Aqui, a sós, longe do tumulto do mundo,
Em harmonia com as aromáticas línguas que me falam,
Sem envergonhar-me mais (pois neste lugar distante, como em
          nenhum outro posso abandonar-me,)
Entregue à vida que não se revela ainda que tudo contenha,
Decido-me hoje a cantar apenas os cantos de viril afecto,
Projectando-os ao longo da plena vida,
Legando, desde já, as formas de másculo amor,
Pela tarde deste delicioso Setembro dos meus quarenta e um
          anos,
Dirijo-me a todos os homens que são ou foram jovens,
Conto-lhes o segredo das minhas noites e dos meus dias,
Celebro a necessidade de companheiros.
 
 
 
walt whitman
cálamo
trad. de José agostinho baptista
assírio & alvim
1999





29 novembro 2021

saint-john perse / ventos

 
 
IV - 7
 
     Depois de a violência ter renovado o leito dos homens sobre
a terra,
     Uma velhíssima árvore, desprovida de folhas, retomou o fio
das suas máximas…
     E uma outra árvore de alta estirpe subia já as grandes Índias
subterrâneas,
     Com a sua folha magnética e o seu carregamento de frutos
novos.
 
 
 
saint-john perse
habitarei o meu nome
antologia
tradução de joão moita
assírio & alvim
2016




28 novembro 2021

josé carlos ary dos santos / auto-retrato

 
 
 
Poeta     é certo     mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
narciso de lombardas e repolhos.
 
Cozido à portuguesa     mais as carnes
suculentas da auto-importância
com toicinho e talento     ambas as partes
do meu caldo entornado na infância.
 
Nos olhos     uma folha de hortelã
que é verde     como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.
 
Poeta de combate     disparate
palavrão de machão no escaparate
porém     morrendo aos poucos de ternura.
 
 
 
ary dos santos
fotos-grafias
1971




27 novembro 2021

mário-henrique leiria / cantar de amigo

 
 
Morros distantes
rios escuros
um homem só
por entre muros
 
Lua remota
terra silente
um homem só
impaciente
 
Cornos sangrentos
cavalo d’ água
um homem só
e sua mágoa
 
O sol que nasce
vem a manhã
um homem só
com seu afã
 
Pleno dia
caminhos duros
todos os homens
já não há muros
 
 
 
mário-henrique leiria
obras completas
poesia
e-primatur
2018