24 dezembro 2025

jorge luís borges / joão I: 14

  
 
Referem as histórias orientais
A daquele rei do tempo, que, sujeito
A tédio e esplendor, saiu, secreto,
Sozinho, para chegar aos arrabais
E se perder na multidão das gentes
De rudes mãos e de obscuros nomes;
Hoje, como aquele Emir dos Crentes,
Harun, Deus quer andar por entre os homens
E nasce de uma mãe, tal como nascem
As linhagens que em poeira se desfazem
E ser-lhe-á entregue o mundo inteiro,
Ar, água, pão, manhãs, a pedra, o lírio;
Depois, porém, o sangue do martírio
E os cravos, o escárnio e o madeiro.
 
 
 
jorge luís borges
obras completas 1952-1972 vol. II
o outro, o mesmo (1964)
trad. fernando pinto do amaral
editorial teorema
1998




23 dezembro 2025

jack gilbert / prometido

  
Ouves-te a caminhar pela neve.
Ouves a ausência dos pássaros.
Uma quietude tão completa, que ouves
o sussurrar dentro de ti. Sozinho,
manhã após manhã, e mais nada
à noite. Dizem que nascemos sós,
para vivermos e morrermos sós. Mas estão errados.
Ficamos sós pelo tempo, por sorte,
ou por infortúnio. Quando, para o libertar,
acerto no cepo congelado na pilha de lenha,
emite um som de perfeita desumanidade,
que, puro, atravessa o vale,
como um corvo a grasnar inesperadamente
no recanto mais sombrio do crepúsculo que me
desperta a meio de uma vida. O preto
e branco de mim entrosados com esta indiferente
paisagem de Inverno. Penso na lua
a surgir num instante para encontrar o branco
entre os pinheiros sem cor.
 
 
 
jack gilbert
deixem-me ser ambos
trad. leonor castro nunes e marcos pereira
destrauss
2020




22 dezembro 2025

jacques brel / os velhos

  
 
Os velhos já não falam ou então por vezes apenas com um
                               olhar tremido
Até ricos são pobres já não têm ilusões e só lhes resta um
                               coração para dois
Em suas casas cheira a tomilho a limpo a lavanda a palavras
                               antigas
Mesmo vivendo em Paris vive-se sempre na província quando
                               se vive demais
Será de tanto terem rido que as suas vozes encarquilham
                               quando falam de ontem
E de tanto terem chorado que lágrimas esquecidas lhes
                               orvalham as pálpebras
E se tremem um pouco será por verem envelhecer o relógio de
                               prata
Que ronrona na sala que ora diz sim ora diz não e diz por vós
                               espero
 
Os velhos já não sonham os seus livros entorpecem os seus
                               pianos não tocam
O gatinho morreu o moscatel dos domingos já os não faz cantar
Os velhos já não mexem os seus gestos são todos rugas o seu
                               mundo é tão pequeno
Da cama para a janela depois da cama para a poltrona por fim
                               da cama para a cama
E se ainda vêm à rua de braço dado envoltos num manto hirto
É para acompanhar pelo sol o enterro de um mais velho o
                               enterro de uma mais feia
E enquanto dura um soluço esquecer por uma hora o relógio
                               de prata
Que ronrona na sala que ora diz sim ora diz não e por eles
                               espera
Os velhos não morrem adormecem um dia e dormem demais
Dão a mão um ao outro receiam perder-se e todavia perdem-se
E o outro para ali fica o melhor ou o pior o meigo ou o severo
Pouco importa porque aquele que fica acorda num inferno
Vê-lo-emos por vezes à chuva e à mágoa
Atravessar o presente pedindo perdão por não estar já mais
                               além
E uma última vez fugir de nós o relógio de prata
Que ronrona na sala que ora diz sim ora diz não e lhe diz por
                               ti espero
Que ronrona na sal que ora diz sim ora diz não e que por fim
                               nos espera
 
 
 
jacques brel
antologia poética
trad. eduardo maia
assírio & alvim
1997




 

21 dezembro 2025

ricardo reis / o que sentimos, não o que é sentido,

  
 
O que sentimos, não o que é sentido,
É o que temos. Claro, o Inverno triste
Como à sorte o acolhamos.
Haja Inverno na terra, não na mente.
E, amor a amor, ou livro a livro, amemos
                Nossa caveira breve.
 
8-7-1930
 
 
fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946 




20 dezembro 2025

bertolt brecht / da violência

  
 
Do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
Mas ninguém diz violentas
As margens que o comprimem.
 
 
 
bertolt brecht
poemas
selecção e trad. de arnaldo saraiva
presença
1976




19 dezembro 2025

manuel de freitas / coliseu dos recreios, 2004



 

 
Desconhecerei – para sempre? –
essa arte de tornar presente
a mais pura e inesperada ausência.
Não sei explicar melhor.
 
Horas depois, na penumbra
de um bar fechado, alguém
me obrigou a escrever o seguinte:
«os nossos filósofos e historiadores
(raiz quadrada) são os
nossos compositores e intérpretes».
 
Talvez seja isso – a pior manhã
que nos encontrou vivos,
a morte que não se diz
 
quando apenas o cavaquinho sabe
que nenhuma voz regressa.
 
 
 
manuel de freitas
cretcheu futebol clube
assírio & alvim
2006




 

18 dezembro 2025

antónio franco alexandre / duende

  
 
6.

Por sorte andas bem longe, lá por fora,
já me esqueci de ti completamente.
É mais fácil assim, saber-te ausente,
corre mais fina a vida junto à morte.
Na caixa do correio só encontro
cartas de beis imperadores, promessas
de palácios talhados em sal-gema,
ouros, tesouros, e outras coisas vagas;
férias, talvez, no sultanato opaco
onde me aguarda um paraíso intacto
de virgens falsas e reais eunucos.
Entre os meus dedos fica o lugar oco
onde tão certo deixo este postal
ilustrado do teu esquecimento.
 
 
 
antónio franco alexandre
duende
assírio & alvim
2002
 


17 dezembro 2025

ana hatherly / 463 tisanas

  
28
 
A civilização consiste em aprendermos a fazer naturalmente tudo o que não é natural. É daí que vem a ideia de angelismo porque o animal em nós consente tudo. Só de vez em quando é que sentimos uma estranha melancolia e sacudindo uma mosca dizemos apetecia-me tanto ir para o campo.
 
 
ana hatherly
463 tisanas
quimera
2006




 

16 dezembro 2025

carlos poças falcão / olhar cada coisa

  
 
Olhar cada coisa, sondar-lhe as naturezas
abissais. É um trabalho de metamorfoses
com o tempo a tombar pelos eixos da matéria
no seu modo oculto, a sua crepitação
elementar. Haver sinais despercebidos
nesse tombo interior que tudo desarruma,
as pequenas unhas que desgastam, as áridas
luzes sem sentido. E as bifurcações, as ondas
propagadas como numa lavra, uma química
lustral. Ver os objectos nessa despedida
por si dentro, a maneira imóvel de caírem
arrastando as manchas, as sombras, as palavras.
 
 
 
carlos poças falcão
três ritos
arte nenhuma
poesia 1987-2012
opera omnia
2012




15 dezembro 2025

josé agustin goytisolo / autobiografia

  
Quando era pequeno
estava sempre triste,
e o meu pai dizia,
olhando-me e meneando
a cabeça: meu filho
não serves para nada.
 
Fui depois para a escola
com pão, até logos,
mas acompanhado
pela tristeza. O professor
grasnou: menininho
não serves para nada.
 
Veio, então, a guerra,
a morte – vi-a –
a quando acabou
e toda a gente a esqueceu,
continuei, triste, a ouvir:
não serves para nada.
 
E quando me puseram
as largas calças,
a tristeza de imediato
tratou de mudá-las.
Meus amigos disseram:
não serves para nada.
 
Na rua, nas aulas,
odiando e aprendendo
a injustiça e as suas leis,
perseguia-me sempre
a triste cantilena:
não serves para nada.
 
De tristeza em tristeza
fui caindo pelos degraus
da vida. E um dia
a miúda que eu amo
disse-me, de modo alegre:
não serves para nada.
 
Vivo agora com ela,
limpo e bem penteado.
Temos uma filha,
a quem, por vezes, digo,
também com alegria:
não serves para nada.



josé agustin goytisolo
iluminação do eu
antologia de poesia hispano-americana
tradução de daniel ferreira
contracapa
2021




 

14 dezembro 2025

alberto caeiro / acordo de noite subitamente

  
XLIV
 
Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma coisa escura com paredes vagamente brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena coisa de engrenagens que está em cima da minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas volto-me, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única coisa que o meu relógio simboliza ou significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez...
E esta sensação é curiosa porque só para mim é que ele enche a noite
Com a sua pequenez...
 
7-5-1914
 
 
 
alberto caeiro
o guardador de rebanhos
poemas completos de alberto caeiro, fernando pessoa
presença
1994




13 dezembro 2025

júlio pomar / TRATAdoDITOeFEITO

  
XLI
 
 
     Não acredito que haja quem não tenha avistado uma vez que
                                                                                         fosse o avesso
do mundo.
Mas com receio
de se enganar ou de vir a ser
perseguido, quem aí esteve não sabe como
dizê-lo ou o que contar sem perigo.
E se acaso algo viram, atentaram depois
no que lhes foi possível discernir
do avesso do mundo?
 
Nas escolas são as crianças proibidas de
falar nisso umas às outras
e as professoras explicam-lhes que é para bem delas, para lhes
guardar a candura, é falso, é para
não se meterem em trabalhos e não correrem o risco
de pôr lado a lado afirmações opostas
tão verdadeiras umas como outras
porque ajustá-las entre si nunca deu resultado nem trouxe a paz
às famílias. Como explicar isto a quem vive na crença de que é preciso
escolher, trinchar, riscar do quadro o que está mesmo a ver que não é
preto nem branco, cru ou cozido, duro ou mole?
Assim as constituições regem os países, se escrevem as leis e
regulamentam os jogos,
se anunciam os modelos de vida, os exemplos
morais os feitos
heroicos os bravos
suicidas.
 
 
júlio pomar
poema TRATAdoDITOeFEITO
dom quixote
2004
 




12 dezembro 2025

joão pedro grabato dias / estou agora só no fim da avenida

  
 
Estou agora só no fim da avenida. Minha casa é aqui.
Sacudo a ligeira vertigem que me acode sempre que chego
Como um intruso que teme acordar a prata dos espelhos
e receia vê-la ondular, enrugar, nas pálpebras do fogo
paro, num fugaz pestanejo em que acendo um cigarro
e passo a ombreira para o visgo da solidão controlada.
 
Que fiz da minha raiva? Esgotei-a? onde estão, quais os culpados?
Onde esqueci (em que desvão, em que lavabo?) o alforge de enganos?
Todos vamos na culpa, como diria o Ioannes. Todos.
O nosso minúsculo e secreto maquinismo de masoquismo
ritmava o ofegar do sádico menor em cada esquina de tédio
todos álvaro de campos com imenso dó de si próprio
todos ceguinhos do acordéon do fado automático
uns mais e outros um pouco menos gozando a música do látego
cada um adiando, cada qual consentindo, todos indo na culpa…
 
 
 
joão pedro grabato dias
odes didácticas
uma meditação, 21 laurentinas e dois fabulários falhados, 1971
tinta da china
2021