26 dezembro 2025

pedro tamen / a água

  
7.
 
Do coração dos frutos um Sopro diz às mãos
o caminho das ondas, acende a luz
ao Anjo. O meio dos perfumes enche as rosas
de tintas de silêncio, e a secura
dos lábios estendida agora já não mais
ardente vai ficar, sem uma qualquer culpa
oculta e desculpável. Um gesto
é necessário. Mais nada, e será feita
a central companhia nesse leito de paz.
 
 
 
pedro tamen
o sangue, a água e o vinho
tábua das matérias
poesia 1956/1991
círculo de leitores
1995
 




25 dezembro 2025

nuno júdice / se, numa noite de natal, a prostituta

  
 
vagueia, no passeio da avenida deserta,
procurando o encontro que não se dá,
e fixa os olhos na luz de uma lâmpada incerta
como se a manhã estivesse ali, agora e já,
 
que mais pode fazer quem por ela passa,
fingindo que não a vê ou a sua presença esquece,
do que apagar a névoa que a sua passagem traça
no espírito que por instantes estremece
 
– a não ser que a sua imagem insista, ainda,
quando o sol tudo tiver finalmente apagado;
que a noite não seja só uma memória finda
 
no canto sombrio de um desencontro adiado;
e que os seus passos não se ouçam, por dentro,
numa inquietação de quem não encontra o centro.
 
 
 
nuno júdice
a fonte da vida
quetzal
1997




 

24 dezembro 2025

jorge luís borges / joão I: 14

  
 
Referem as histórias orientais
A daquele rei do tempo, que, sujeito
A tédio e esplendor, saiu, secreto,
Sozinho, para chegar aos arrabais
E se perder na multidão das gentes
De rudes mãos e de obscuros nomes;
Hoje, como aquele Emir dos Crentes,
Harun, Deus quer andar por entre os homens
E nasce de uma mãe, tal como nascem
As linhagens que em poeira se desfazem
E ser-lhe-á entregue o mundo inteiro,
Ar, água, pão, manhãs, a pedra, o lírio;
Depois, porém, o sangue do martírio
E os cravos, o escárnio e o madeiro.
 
 
 
jorge luís borges
obras completas 1952-1972 vol. II
o outro, o mesmo (1964)
trad. fernando pinto do amaral
editorial teorema
1998




23 dezembro 2025

jack gilbert / prometido

  
Ouves-te a caminhar pela neve.
Ouves a ausência dos pássaros.
Uma quietude tão completa, que ouves
o sussurrar dentro de ti. Sozinho,
manhã após manhã, e mais nada
à noite. Dizem que nascemos sós,
para vivermos e morrermos sós. Mas estão errados.
Ficamos sós pelo tempo, por sorte,
ou por infortúnio. Quando, para o libertar,
acerto no cepo congelado na pilha de lenha,
emite um som de perfeita desumanidade,
que, puro, atravessa o vale,
como um corvo a grasnar inesperadamente
no recanto mais sombrio do crepúsculo que me
desperta a meio de uma vida. O preto
e branco de mim entrosados com esta indiferente
paisagem de Inverno. Penso na lua
a surgir num instante para encontrar o branco
entre os pinheiros sem cor.
 
 
 
jack gilbert
deixem-me ser ambos
trad. leonor castro nunes e marcos pereira
destrauss
2020




22 dezembro 2025

jacques brel / os velhos

  
 
Os velhos já não falam ou então por vezes apenas com um
                               olhar tremido
Até ricos são pobres já não têm ilusões e só lhes resta um
                               coração para dois
Em suas casas cheira a tomilho a limpo a lavanda a palavras
                               antigas
Mesmo vivendo em Paris vive-se sempre na província quando
                               se vive demais
Será de tanto terem rido que as suas vozes encarquilham
                               quando falam de ontem
E de tanto terem chorado que lágrimas esquecidas lhes
                               orvalham as pálpebras
E se tremem um pouco será por verem envelhecer o relógio de
                               prata
Que ronrona na sala que ora diz sim ora diz não e diz por vós
                               espero
 
Os velhos já não sonham os seus livros entorpecem os seus
                               pianos não tocam
O gatinho morreu o moscatel dos domingos já os não faz cantar
Os velhos já não mexem os seus gestos são todos rugas o seu
                               mundo é tão pequeno
Da cama para a janela depois da cama para a poltrona por fim
                               da cama para a cama
E se ainda vêm à rua de braço dado envoltos num manto hirto
É para acompanhar pelo sol o enterro de um mais velho o
                               enterro de uma mais feia
E enquanto dura um soluço esquecer por uma hora o relógio
                               de prata
Que ronrona na sala que ora diz sim ora diz não e por eles
                               espera
Os velhos não morrem adormecem um dia e dormem demais
Dão a mão um ao outro receiam perder-se e todavia perdem-se
E o outro para ali fica o melhor ou o pior o meigo ou o severo
Pouco importa porque aquele que fica acorda num inferno
Vê-lo-emos por vezes à chuva e à mágoa
Atravessar o presente pedindo perdão por não estar já mais
                               além
E uma última vez fugir de nós o relógio de prata
Que ronrona na sala que ora diz sim ora diz não e lhe diz por
                               ti espero
Que ronrona na sal que ora diz sim ora diz não e que por fim
                               nos espera
 
 
 
jacques brel
antologia poética
trad. eduardo maia
assírio & alvim
1997




 

21 dezembro 2025

ricardo reis / o que sentimos, não o que é sentido,

  
 
O que sentimos, não o que é sentido,
É o que temos. Claro, o Inverno triste
Como à sorte o acolhamos.
Haja Inverno na terra, não na mente.
E, amor a amor, ou livro a livro, amemos
                Nossa caveira breve.
 
8-7-1930
 
 
fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946 




20 dezembro 2025

bertolt brecht / da violência

  
 
Do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
Mas ninguém diz violentas
As margens que o comprimem.
 
 
 
bertolt brecht
poemas
selecção e trad. de arnaldo saraiva
presença
1976




19 dezembro 2025

manuel de freitas / coliseu dos recreios, 2004



 

 
Desconhecerei – para sempre? –
essa arte de tornar presente
a mais pura e inesperada ausência.
Não sei explicar melhor.
 
Horas depois, na penumbra
de um bar fechado, alguém
me obrigou a escrever o seguinte:
«os nossos filósofos e historiadores
(raiz quadrada) são os
nossos compositores e intérpretes».
 
Talvez seja isso – a pior manhã
que nos encontrou vivos,
a morte que não se diz
 
quando apenas o cavaquinho sabe
que nenhuma voz regressa.
 
 
 
manuel de freitas
cretcheu futebol clube
assírio & alvim
2006




 

18 dezembro 2025

antónio franco alexandre / duende

  
 
6.

Por sorte andas bem longe, lá por fora,
já me esqueci de ti completamente.
É mais fácil assim, saber-te ausente,
corre mais fina a vida junto à morte.
Na caixa do correio só encontro
cartas de beis imperadores, promessas
de palácios talhados em sal-gema,
ouros, tesouros, e outras coisas vagas;
férias, talvez, no sultanato opaco
onde me aguarda um paraíso intacto
de virgens falsas e reais eunucos.
Entre os meus dedos fica o lugar oco
onde tão certo deixo este postal
ilustrado do teu esquecimento.
 
 
 
antónio franco alexandre
duende
assírio & alvim
2002
 


17 dezembro 2025

ana hatherly / 463 tisanas

  
28
 
A civilização consiste em aprendermos a fazer naturalmente tudo o que não é natural. É daí que vem a ideia de angelismo porque o animal em nós consente tudo. Só de vez em quando é que sentimos uma estranha melancolia e sacudindo uma mosca dizemos apetecia-me tanto ir para o campo.
 
 
ana hatherly
463 tisanas
quimera
2006




 

16 dezembro 2025

carlos poças falcão / olhar cada coisa

  
 
Olhar cada coisa, sondar-lhe as naturezas
abissais. É um trabalho de metamorfoses
com o tempo a tombar pelos eixos da matéria
no seu modo oculto, a sua crepitação
elementar. Haver sinais despercebidos
nesse tombo interior que tudo desarruma,
as pequenas unhas que desgastam, as áridas
luzes sem sentido. E as bifurcações, as ondas
propagadas como numa lavra, uma química
lustral. Ver os objectos nessa despedida
por si dentro, a maneira imóvel de caírem
arrastando as manchas, as sombras, as palavras.
 
 
 
carlos poças falcão
três ritos
arte nenhuma
poesia 1987-2012
opera omnia
2012




15 dezembro 2025

josé agustin goytisolo / autobiografia

  
Quando era pequeno
estava sempre triste,
e o meu pai dizia,
olhando-me e meneando
a cabeça: meu filho
não serves para nada.
 
Fui depois para a escola
com pão, até logos,
mas acompanhado
pela tristeza. O professor
grasnou: menininho
não serves para nada.
 
Veio, então, a guerra,
a morte – vi-a –
a quando acabou
e toda a gente a esqueceu,
continuei, triste, a ouvir:
não serves para nada.
 
E quando me puseram
as largas calças,
a tristeza de imediato
tratou de mudá-las.
Meus amigos disseram:
não serves para nada.
 
Na rua, nas aulas,
odiando e aprendendo
a injustiça e as suas leis,
perseguia-me sempre
a triste cantilena:
não serves para nada.
 
De tristeza em tristeza
fui caindo pelos degraus
da vida. E um dia
a miúda que eu amo
disse-me, de modo alegre:
não serves para nada.
 
Vivo agora com ela,
limpo e bem penteado.
Temos uma filha,
a quem, por vezes, digo,
também com alegria:
não serves para nada.



josé agustin goytisolo
iluminação do eu
antologia de poesia hispano-americana
tradução de daniel ferreira
contracapa
2021




 

14 dezembro 2025

alberto caeiro / acordo de noite subitamente

  
XLIV
 
Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma coisa escura com paredes vagamente brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena coisa de engrenagens que está em cima da minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas volto-me, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única coisa que o meu relógio simboliza ou significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez...
E esta sensação é curiosa porque só para mim é que ele enche a noite
Com a sua pequenez...
 
7-5-1914
 
 
 
alberto caeiro
o guardador de rebanhos
poemas completos de alberto caeiro, fernando pessoa
presença
1994