06 janeiro 2026

roberto juarroz / não se trata de falar

  
Não se trata de falar,
nem tão-pouco de calar:
trata-se de abrir algo
entre a palavra e o silêncio.
 
Talvez quando tudo tenha decorrido,
também a palavra e o silêncio,
fique essa zona aberta
como uma esperança andando para trás.
 
E talvez esse signo invertido
constitua um toque de atenção
para este mutismo ilimitado
onde palpavelmente nos afundamos.
 
 
 
roberto juarroz
a árvore derrubada pelos frutos
trad. rui caeiro, duarte pereira e diogo vaz pinto
língua morta
2018





05 janeiro 2026

josé emílio pacheco / o novo ano

  
 
O novo ano não bate à porta, não cumprimenta ninguém, fita-nos com a arrogância de quem nos tem nas mãos. Troça dos nossos intentos de cativá-lo. Pulverizará as boas intenções. Tem gozo no seu poder, sabe-o efémero, conhece as desgraças que sem equidade distribuirá, como sempre.
Na sua jurisdição de vida e morte, o novo ano arrasará tudo, não deixando sequer uma flor seca para o sentimentalismo da lembrança. Atropela com soberba de vencedor a nossa frágil dignidade, nós que o inventámos e que para ele erguemos um altar.
 
 
 
josé emílio pacheco
desde entonces (1975-1978)
a árvore tocada pelo raio
antologia poética
trad. miguel filipe mochila
maldoror
2024




 

04 janeiro 2026

elio pecora / quem poderá jamais

  
 
Quem poderá jamais dar-me aquele bem
que esperava como um alimento?
O que me acontecerá agora que a uma casca vazia
assemelho o meu dia, a minha sorte?
Não vejo, não escuto, enveredo
por um longo caminho, sem mapa,
e não deixo sinais para voltar:
ao encontro da escuridão avanço, vindo da escuridão.
 
 
elio pecora
poemas escolhidos
recinto de amor (1992)
tradução de simoneta neto
quasi
2008




 

03 janeiro 2026

wallace stevens / uma velha cristã de tom altivo

 



 

 
A poesia é a ficção suprema, madame.
Tome a lei moral e faça dela uma nave
E da nave construa o céu assombrado. Assim,
A consciência é convertida em palmas,
Como cítaras de vento ansiando por hinos.
Em princípio concordamos. É claro. Mas tome
A lei oposta e faça um peristilo,
E do peristilo projecte uma mascarada
Para lá dos planetas. Assim, a nossa indecência,
Não expurgada por epitáfio, praticada por fim,
É igualmente convertida em palmas,
Meneando-se como saxofones. E palma por palma,
Madame, estamos onde começámos. Permita,
Portanto, que na cena planetária
Os seus flageladores desafectos, bem-comidos,
Em parada, batendo nas barrigas entontecidas,
Orgulhosos de tais novidades do sublime,
Tais trran-tan-tan e trrum-tum-tum.
Possam, meramente possam, madame, arrancar de
                                                           si mesmos
Uma jovial algazarra entre as esferas.
Isto fará crispar as viúvas. Mas coisas fictícias
Piscam quando querem. Piscam mais quando as
                                               viúvas crispam.
 
 
 
wallace stevens
ficção suprema
trad. luísa maria lucas queiroz de campos
assírrio & alvim
1991



02 janeiro 2026

rui diniz / enquanto escrevo

  
 
ENQUANTO ESCREVO   
não me deprimo:
é toda a vontade de escrever
que me resta
e às vezes
se tenho sorte
o achado de uma
imagem feliz
ou de um dito
inteligente
«enviado de algum senhor…»
desmonto do cavalo suado
e matam-me
sem razão aparente
brinquei demasiado com a vida
a infância acabou
e eu continuei a crer nas
fadas nas faldas dos bosques
e misteriosas princesas
que me esperam
em castelos silenciosos
«o mar ali era de um
azul ferrete e enchia-se
de carneiros sobrados
a alguma écloga»
no fundo não há ninguém
são inúteis as janelas
e os postigos
faz-se café para os ratos
mas o mais absurdo
são os espelhos
visto o sobretudo
de mágoa, ponho a solidão
como um chapéu
e hóspede de mim
como uma ténia
saio para
as praias da desolação.
 
 
 
rui diniz
ossos de sépia
noemas
língua morta
2022





01 janeiro 2026

josé gomes ferreira / porta que se rasga



 

LI
 
Porta que se rasga
nas pedras.
 
E pé ante pé
por degraus magoados
desço à Caverna
onde me encontro de súbito diante dum ser que desconheço
a falar com a minha boca
a linguagem do sabor das fontes
na Solidão do Começo.
 
Mas eu prefiro a outra,
a Solidão
insurrecta das sementes
– onde talvez um dia as flores abrirão
para o destino de bandeiras quentes.
 
 
 
josé gomes ferreira
poesia IV
encruzilhada (1949-1950)
portugália
1971





 

31 dezembro 2025

david mourão-ferreira / baptismo

  
 
Vamos abrir a noite               Vamos abrir a noite
com música de «jazz»           Percorrê-la depois
 
num barco de borracha               Celebrar o segredo
Enforcar a memória               Descobrir de repente
 
uma lha que nasce dentro do teu vestido
 
Chamar-lhe Madrugada               Adormecer contigo
 
 
 
david mourão-ferreira
poezz
jazz  na poesia em língua portuguesa
josé duarte e ricardo antónio alves
almedina
2004




30 dezembro 2025

josé miguel silva / centro comercial

  
                                                        Para o Carlos Bessa
 
 
Irrompem no elevador. São quatro,
fogem de um, fecham-lhe a porta,
riem-se juntos. O outro, eixo moído,
embate na vida, força a entrada,
acaba no chão: eu não sei o caminho
de casa! De nada lhe serve chamar
as Erínias, largam a trote os netos
de Zeus, o vinho da força responde
por eles, esconde de todos a destruição.
 
E eu, o que faço? Não faço nada.
Um pouco mais velho, um pouco
mais sonso, tal como vós,
escolho o caminho da loja seguinte.
 
 
josé miguel silva
ulisses já não mora aqui
língua morta
2014




29 dezembro 2025

manuel antónio pina / nenhuma coisa

  

Estou sempre a falar de mim ou não. O meu trabalho
é destruir aos poucos, tudo o que me lembra.
Reflexão e, ao mesmo tempo, exercício mortal.
Normalmente regresso a casa tarde, doente.
 
Desta maneira (e doutras –
a carne é triste, hélas!, e eu já li tudo)
ocupo o lugar imóvel do poema. Procuro o sentido
(vivo ou morto!) para o liquidar. Mas onde? E como? E quem?
 
Tudo o que acaba e começa.
O que está entre as pernas, mudando de lugar.
(Que fazer e para quê?)
 
 
 
manuel antónio pina
ainda não é o fim nem o princípio do mundo
calma é apenas um pouco tarde (1969)
todas as palavras, poesia reunida
assírio & alvim
2012




 

28 dezembro 2025

álvaro de campos / hoje que tudo me falta, como se fosse o chão,

  
 
Hoje que tudo me falta, como se fosse o chão,
Que me conheço atrozmente, que toda a literatura
Que uso de mim para mim, para ter consciência de mim,
Caiu, como o papel que embrulhou um rebuçado mau —
Hoje tenho uma alma parecida com a morte dos nervos
Necrose da alma,
Apodrecimento dos sentidos.
Tudo quanto tenho feito conheço-o claramente: é nada.
Tudo quanto sonhei, podia tê-lo sonhado o moço de fretes.
Tudo quanto amei, se hoje me lembro que o amei, morreu há muito.
Ó Paraíso Perdido da minha infância burguesa,
Meu Éden agasalhando o chá nocturno,
Minha colcha limpa de menino!
O Destino acabou-me como a um manuscrito interrompido.
Nem altos nem baixos — consciência de nem sequer a ter...
Papelotes da velha solteira — toda a minha vida.
Tenho uma náusea do estômago nos pulmões.
Custa-me a respirar para sustentar a alma.
Tenho uma quantidade de doenças tristes nas juntas da vontade.
Minha grinalda de poeta — eras de flores de papel,
A tua imortalidade presumida era o não teres vida.
Minha coroa de louros de poeta — sonhada petrarquicamente,
Sem capotinho mas com fama,
Sem dados mas com Deus —
Tabuleta [de] vinho falsificado na última taberna da esquina!
 
9-3-1930



álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993

27 dezembro 2025

miguel serras pereira / pássaro de fogo

  
Se um dia à morte me levar a neve
meu pássaro de fogo sem adeus
a vida é longa a morte breve
Queria-te nua até seres deus
 
deus rapariga deus sem credo
sem joelhos postos a seus pés
Onde te vejo estás e faz-se cedo
e é onde eu estaria só que tu me vês
 
 
 
miguel serras pereira
á tona do vazio & reprise
cinquenta anos de poesia de miguel serras pereira 1969-2019
corça (1982)
barricada de livros
2022




 

26 dezembro 2025

pedro tamen / a água

  
7.
 
Do coração dos frutos um Sopro diz às mãos
o caminho das ondas, acende a luz
ao Anjo. O meio dos perfumes enche as rosas
de tintas de silêncio, e a secura
dos lábios estendida agora já não mais
ardente vai ficar, sem uma qualquer culpa
oculta e desculpável. Um gesto
é necessário. Mais nada, e será feita
a central companhia nesse leito de paz.
 
 
 
pedro tamen
o sangue, a água e o vinho
tábua das matérias
poesia 1956/1991
círculo de leitores
1995
 




25 dezembro 2025

nuno júdice / se, numa noite de natal, a prostituta

  
 
vagueia, no passeio da avenida deserta,
procurando o encontro que não se dá,
e fixa os olhos na luz de uma lâmpada incerta
como se a manhã estivesse ali, agora e já,
 
que mais pode fazer quem por ela passa,
fingindo que não a vê ou a sua presença esquece,
do que apagar a névoa que a sua passagem traça
no espírito que por instantes estremece
 
– a não ser que a sua imagem insista, ainda,
quando o sol tudo tiver finalmente apagado;
que a noite não seja só uma memória finda
 
no canto sombrio de um desencontro adiado;
e que os seus passos não se ouçam, por dentro,
numa inquietação de quem não encontra o centro.
 
 
 
nuno júdice
a fonte da vida
quetzal
1997