19 abril 2017

jaime rocha / o homem que dorme



E se uma avenida fosse um lago
comprido e a água passasse por
uma turbina e decidisse afundar
a cidade até só o castelo ser visto
dentro de um barco.

Não há tempo
para os vinhos nascerem.

Os dias passam num instante como
o reflexo de um farol num espelho.
O azedo das ruas transforma-se
num cenário que só um jornal
impresso pode descrever_____.

Um homem anda com embrulhos
de plástico. Toda a gente sabe que
dorme na soleira de uma empresa
de candeeiros. É uma sombra,
um rasto.

Mas ninguém se aperceberá
da sua morte.


jaime rocha
voo rasante
antologia de poesia contemporânea
mariposa azual
2015



18 abril 2017

pere quart / o ganho



     Nada perdeu,
Pois nada possuía,
Quem chegava inválido e despido.
     Mas ganhou pouco a pouco, depressa,
o melhor de saudades, preguiça acobardada,
e uma medida rasa de incertezas
onde a ilusão com tédio vai procurar migalhas.


pere quart
a rosa do mundo 2001 poemas para o futuro
tradução de josé bento
assírio & alvim
2001






17 abril 2017

samuel beckett / tédio II



mundo mundo mundo mundo
e o rosto grave
nuvem contra o anoitecer

de morituris nihil nisi

e o rosto esfarelando-se tímido
tarde de mais para obscurecer o céu
corando pela noite dentro
estremecendo como uma gafe

veronica mundi
veronica munda
dá-nos uma enxugadela por amor de Jesus

suando como Judas
cansado de morrer
cansado de polícias
pés na marmelada
suando em profusão
coração na marmelada
fuma mais fruta
o velho coração o velho coração
despedaçando-se fora do congresso

doch asseguro-te
deitado na ponte O’Connell
de olhos arregalados para as tulipas da noite
as tulipas verdes
reluzindo ao dobrar da esquina como um
                                                           [carbúnculo
reluzindo nos batelões de Guinness

a sugestão o rosto
tarde de mais para abrilhantar o céu
doch doch asseguro-te




samuel beckett
poemas escolhidos
tradução de jorge rosa e armando da silva carvalho
dom quixote
1970



16 abril 2017

josé de almada negreiros / o valor das palavras




Há palavras que fazem bater mais depressa o coração – todas as palavras – umas mais do que outras, qualquer mais do que todas. Conforme os lugares e as posições das palavras. Segundo o lado de onde se ouvem  do lado do Sol ou do lado onde não dá o Sol.

Cada palavra é um pedaço do universo. Um pedaço que faz falta ao universo. Todas as palavras juntas formam o Universo.

As palavras querem estar nos seus lugares!


josé de almada negreiros
andaimes e vésperas
poesia
estampa
1971



15 abril 2017

fernando pessoa / em tempos quis o mundo inteiro.




Em tempos quis o mundo inteiro.
Era criança e havia amar.
Hoje sou lúcido e estrangeiro.
(Acabarei por não pensar.)

A quem o mundo não bastava,
(Porque depois não bastaria)
E a alma era um céu, e havia lava
Dos vulcões do que eu não sabia,

Basta hoje o dia não ser feio,
Haver brisa que em sombras flui,
Nem se perder de todo o enleio
De ter sido quem nunca fui.

28-5-1930


fernando pessoa
pessoa por conhecer - textos para um novo mapa
estampa
1990



14 abril 2017

manuel antónio pina / mateus, 26, 26



Tomai, este é o meu corpo:
formas e símbolos.

Fora de mim, o meu reino
Desmembra-se dentro de mim.

E o que fala falta-me
dentro do coração.

E estou sozinho fora de mim
como um coração fora de mim.



manuel antónio pina
o caminho de casa (1989)
algo parecido com isto, da mesma substância
poesia reunida 1974-1992
afrontamento
1992




13 abril 2017

herberto helder / que nenhum outro pensamento me doesse




que nenhum outro pensamento me doesse, nenhuma
                                                          imagem profunda:
noite erguida até à derradeira estrela
cavada entre os meus olhos cegos



herberto helder
a morte sem mestre
porto editora
2014








12 abril 2017

luís miguel nava / falésias






Poder-me-ão encontrar, trago um rapaz na minha
memória, a casa a uma janela
da qual o faço vir como um sabor à boca,
falésias onde o aguardo à hora do crepúsculo.

Regresso assim ao mar de que não posso
falar sem recorrer ao fogo e as tempestades
ao longe multiplicam-nos os passos.
Onde eu não sonhe a solidão fá-lo por mim.



luís miguel nava
como alguém disse
contexto editora
1982



11 abril 2017

r. lino / palavras do imperador hadriano na morte de antínoos




há muito vinho nos barris;
um barco desce o rio;
a velhice sobe
no princípio das grandes rugas solitárias.
semana a semana
chega a seiva do deserto:
fome farta de fartas sombras.
foi pela 12.ª hora que Chabrias entrou
e me disse na tenda
por onde ido te não sabia.
indícios pelos caminhos,
até às palavras finais de Hermógenes,
atravessámos.
chamei então todas as doenças
invocando o igual misté-
rio das saúdes:
dor que se corta pelo sol
como a fresca brisa pelo deserto
e o sémen
conhecia nos teus olhos a sagrada viagem
desse fogo: atento dorso que era meu.
sozinho no prazer me ergo agora
dentro desse corpo
por mil canais atravessado.
quem por mim
– hora em que regresso partindo tu –
devastará os profundos sulcos desses lábios
– quanto de tanta juventude me tiraste –
tão macios e tão gretados?


r. lino
palavras do imperador hadriano
políptico
companhia das ilhas
2016






10 abril 2017

janet frame / o palhaço



A sua cara está manchada por lágrimas maquilhadas.
Eu e os outros aplaudimo-lo, sabendo
que é de bom tom aprovar quando um palhaço chora
e de mau tom  quando o faz uma cara persistentemente
dorida sejam ou não pintadas as suas lágrimas.

Também é de bom tom, entre guerras,
dizer que o ódio é amor e o amor é ódio,
argumentar que tudo é mais complexo do que sonhámos
e depois dizer que não o sonhámos
sempre o soubemos e somos sensatos.

Caro palhaço choroso caro velho infantil
caro assassino gentil caro e inocente culpado
cara simplicidade odeio-vos por causarem que eu finja
que há vários mundos para uma verdade quando
eu sei, eu sei que não há. Pessoas como eu e vocês, meus caros,
que têm mau hálito, que adormecem e de intestinos
ruidosos que controlam a fé
que chegam à casa vazia ou entre a família,
cara família, caro homem solitário no mundo despedaçado de nin-
                  guém,
será para essa desolação que acumulámos palavras durante tantos
milhões de anos, desde o primeiro, gememos
e olhamos para as estrelas. Oh oh o céu é demasiado amplo para
                  dormir debaixo!


janet frame
a rosa do mundo 2001 poemas para o futuro
tradução de josé alberto oliveira
assírio & alvim
2001




09 abril 2017

álvaro de campos / diluente



A vizinha do número quatorze ria hoje da porta
De onde há um mês saiu o enterro do filho pequeno.
Ria naturalmente com a alma na cara.
Está certo: é a vida.
A dor não dura porque a dor não dura.
Está certo.
Repito: está certo.
Mas o meu coração não está certo.
O meu coração romântico faz enigmas do egoísmo da vida.
Cá está a lição, ó alma da gente!
Se a mãe esquece o filho que saiu dela e morreu,
Quem se vai dar ao trabalho de se lembrar de mim?
Estou só no mundo, como um peão de cair.
Posso morrer como o orvalho seca.
Por uma arte natural de natureza solar,
Posso morrer à vontade da deslembrança,
Posso morrer como ninguém...
Mas isto dói,
Isto é indecente para quem tem coração...
Isto...
Sim, isto fica-me nas goelas como uma sanduíche com lágrimas...
Gloria? Amor? O anseio de uma alma humana?
Apoteose ás avessas...
Dêem-me Agua de Vidago, que eu quero esquecer a Vida!

29-8-1929



álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993



08 abril 2017

eugénio de andrade / juventude



Sim, eu conheço, eu amo ainda
esse rumor abrindo, luz molhada,
rosa branca! Não, não é solidão,
nem frio, nem boca aprisionada.
Não é pedra nem espessura.
É juventude. Juventude ou claridade.
É um azul puríssimo, propagado,
isento de peso e crueldade.


eugénio de andrade
poemas
edit. inova
1971




07 abril 2017

s. kierkegaard / clamar e gritar



É, de facto, precisa uma grande ingenuidade para acreditar que, no mundo, servirá de alguma coisa clamar e gritar – como se, com isso, o destino de uma pessoa mudasse. Aceite-se o destino tal como é oferecido e evitem-se todas as prolixidades. Quando eu, na minha juventude, ia a um restaurante, também dizia ao empregado: um bom naco, um muito bom naco, do lombo, não demasiado gordo. Se calhar o empregado mal ouvia o meu apelo, menos ainda lhe prestava atenção, menos ainda a minha voz conseguia chegar até à cozinha, mover quem trinchava – e, mesmo que tudo isto acontecesse, talvez não houvesse nenhum bom naco em todo o assado. Agora já não clamo mais.


s. kierkegaard
diapsalmata
trad. de bárbara silva, m. jorge de carvalho,
nuno ferro e sara carvalhais
assírio & alvim
2011