22 março 2007

requiem

(ao menino morto, eu próprio)




A tarde declina com uma luz ténue.
Estou grave e calmo.
E não preciso de ninguém
Nem a luz da tarde me comove: entendo-a.
Até as imagens me são inúteis porque contemplo tudo.


Os ventos rodam, rodam, gemem e cantam
E voltam. São os mesmos:
Como os conheço desde a infância!
E a terra húmida das tapadas da quinta…
O estrume da égua morta quando eu tinha seis anos
Gira transparente nesta brisa fria…
(Na noite gotas de orvalho sumiam-se sob as folhas de erva…)


Oh, não há solidão nas neblinas de Inverno
Pela erma planície…


E foi engano julgar-te morto e tão só nas tapadas em silêncio…
Agora sei que vives mais
Porque começo a sentir a tua presença, grande como o silêncio…
Já me não vem a vaga tristeza do teu chamamento longínquo,
Já me confundo contigo.







cristovam pavia
revista árvore, nº. 1
Outono de 1951





3 comentários:

Trebor disse...

Tudo que nos cerca pode nos deixar mais vivos ou mortos....tudo depende da relação que mantemos com elas.....Lindo texto.....
Não deixe de visitar meu blog: http://blog.inteligweb.com.br/blogs/gonsalvez/

Um efusivo abraço

Trebor Basques

magnohlia disse...

Belo

Silvia Chueire disse...

Um belo blog. Preciso tempo para o ler cuidadosamente. Mas, desde já , pelo que vi, parabéns !


Abraços,

Silvia