01 maio 2017

jacques prévert / canção na massa do sangue




Há grandes manchas de sangue no mundo
para onde vai todo esse sangue vertido
será a terra que o bebe e com ele se embebeda
estranha bebedeira então
tão ponderada… tão monótona…
Não a terra não se embriaga
a terra não gira ao contrário
vai arrastando a sua carripana as quatro estações
a chuva… a neve…
o granizo… o bom tempo…
nunca se embebeda
só muito de longe a longe ela se permite
um mísero vulcão
A terra gira
gira com as suas árvores… os seus jardins… as suas casas…
gira com as suas poças de sangue
e todas as coisas vivas giram com ela e sangram…
Mas a terra
pouco se importa
gira e todas as coisas vivas desatam a gritar
ela pouco se importa
vai girando
sem parar
e o sangue não pára de correr…
Para onde vai todo esse sangue vertido
o sangue dos crimes… o sangue das guerras…
o sangue da miséria…
e o sangue dos homens torturados nas prisões…
o sangue das crianças calmamente torturadas pelo pai e pela
     mãe…
E o sangue dos homens que sangram da cabeça
nas celas de isolamento…
 e o sangue do trolha
quando escorrega e cai do telhado
E o sangue que brota e que corre aos borbotões
com o recém-nascido… com o filho novo…
a mãe a gritar… a criança a chorar…
o sangue corre… a terra gira
a terra não pára de girar
o sangue não pára de correr
Para onde vai todo esse sangue vertido
o sangue dos espancados… dos humilhados…
dos suicidados… dos fuzilados… dos condenados…
e o sangue daqueles que morrem assim… por acidente
Na rua passa um vivo
com todo o seu sangue lá dentro
de repente ei-lo morto
e todo o seu sangue está cá fora
e os outros vivos fazem desaparecer o sangue
levam o corpo
mas o sangue é teimoso
e lá onde estava o morto
em breve já negro
vê-se ainda um pouco de sangue…
sangue coagulado
ferrete da vida ferrete dos corpos
sangue coalhado como leite
como o leite azeda
quando gira como a terra
como a terra que gira
com o seu leite… com as suas vacas…
com os seus vivos… com os seus mortos
a terra que gira com as suas árvores… os seus vivos… as suas
     casas…
a terra que gira com os casamentos…
os enterros…
os clarins…
os regimentos… a terra que não pára de girar
com os seus grandes rios de sangue.

1936


jacques prévert
palavras
trad. manuela torres
sextante editora
2007




30 abril 2017

bernardo soares / assim organizar a nossa vida que ela seja para os outros um mistério



Assim organizar a nossa vida que ela seja para os outros um mistério, que quem melhor nos conheça, apenas nos desconheça de mais perto que os outros. Eu assim talhei a minha vida, quase que sem pensar nisso, mas tanta arte instintiva pus em fazê-lo que para mim próprio me tornei uma não de todo clara e nítida individualidade minha.
s.d.



fernando pessoa
livro do desassossego por bernardo soares. vol.I
ática
1982



29 abril 2017

adolfo casais monteiro / o paraíso perdido



Meus paraísos perdidos!

Este entreter a olhar-me
Em espelhos que enganam
que feitiço mo impõe?

Devolvei-me os meus brinquedos…
  

adolfo casais monteiro
confusão
1929




28 abril 2017

Ítalo calvino / as cidades subtis. 4




A cidade de Sofrónia compõe-se de duas meias cidades. Numa iça a grande montanha russa de íngremes bossas, o carrossel com a sua auréola de correntes, a rode das gaiolas giratórias, o poço da morte com os motociclistas de cabeça para baixo, a cúpula do circo com o cacho dos trapézios a pender ao meio.  A outra meia cidade é de pedra e mármore e cimento, com o banco, os opiários, os prédios, o matadouro, a escola e tudo o resto. Uma das meias cidades está fixa, a outra é provisória e quando acaba o tempo da sua estadia despregam-na, desmontam-na e levam-na dali para fora, para a enxertar nos terrenos vagos de outra meia cidade.

Assim todos os anos chega o dia em que os operários destacam os frontões de mármore, deitam abaixo as paredes de pedra, os pilares de cimento, desmontam o ministério, o monumento, as docas, a refinaria de petróleo, o hospital, e carregam-nos em reboques de grandes camiões para seguirem de praça e praça o itinerário de todos os anos. Aqui fica a meia Sofrónia das barracas de tiro ao alvo e dos carrosséis, com o grito suspenso da naveta da montanha russa do avesso, e começa a contar quantos meses, quantos dias deverá aguardar antes eu retorne a caravana e recomece a vida inteira.



Ítalo calvino
as cidades invisíveis
trad. josé colaço barreiros
teorema
1999




27 abril 2017

mário cesariny / lord bevan em lisboa



Ora deixai-me dizer
que vejo tudo ao contrário
do que era lícito ver

Ontem encontrei um operário
todo de pernas para o ar
no bolso de um usurário

«Que linda vista para o mar!»
dizia – e dizendo isto
tinha uns olhos a chorar

que eram tal qual os do Cristo
nos bonecos de se orar.
De repente o usurário

vai para o bolso do operário
«Que linda vista para o campo!»
dizia – e dizendo isto

escondia num lenço branco
um dinheirinho
que era a túnica do Cristo
à moda do Minho.

Vai daí veio a polícia
o exército a milícia
com trinta carros de assalto

e um capitão muito alto.
Zás! Zim! Bum! já nada vejo
e até creio que morri.

«Que linda vista para o Tejo!»

 – Mas o que é que se passa aqui?




mário cesariny
nobilíssima visão
assírio & alvim
1991




26 abril 2017

juan luís panero / os abandonados da morte



Um, com o punho apoiado no queixo,
outro, com a cabeça enfiada nas mãos,
e o terceiro de olhos postos no vazio,
os três velhos dormitam à roda da mesa
na esplanada de um bar.
Aquecidos pelo café, aguardam, pacientes
ou impacientes, a desconhecida
que os visita em sonhos,
e acaricia as máscaras os seus rostos,
que o suor desenha e borra.
De súbito, o ruído de uma mota
e um casal jovem e enlaçado cruza a estrada,
depois o estrondo, os previsíveis sinais da morte,
que busca juventude e não corpos decrépitos.
Os três velhos entreolham-se e choram o seu abandono.



juan luís panero
antes que chegue a noite
versões de antónio cabrita e teresa noronha
fenda
2000





25 abril 2017

mário dionísio / à tua volta



102

À tua volta
espalha a alegria

Não o contentamento
esse cântaro quebrado
num mundo sitiado
onde tudo nos magoa
e vira
contra tudo
o grande riso dos engenhos
para esmagar
o amor e a ternura

Não o contentamento
esse estou-me nas tintas dos velhos manhosos
coração ausente hilariedade
até nos tira a fome e a vontade
e tu próprio dilacerado
cativo
da ironia suja
dos arames farpados
dos sentimentos sepultados

Onde quer que sejas
onde quer que estejas
em liberdade
sem liberdade
acorrentado fustigado fica de pé


mário dionísio
poesia completa
le feu qui dort (1967)
imprensa nacional-casa da moeda
2016



24 abril 2017

herberto helder / transforma-se o amador na coisa amada




«Transforma-se o amador na coisa amada», com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.



Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.



Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.



E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo
                                                         e do amor.



herberto helder
poesia toda
a colher na boca
assírio & alvim
1996




23 abril 2017

bernardo soares / a liberdade é a possibilidade do isolamento.



A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade de dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.

Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.

A morte é uma libertação porque morrer é não precisar de outrem. O pobre escravo vê-se livre à força dos seus prazeres, das suas mágoas, da sua vida desejada e contínua. Vê-se livre o rei dos seus domínios, que não queria deixar. As que espalharam amor vêem-se livres dos triunfos que adoram. Os que venceram vêem-se livres das vitórias para que a sua vida se fadou.

Por isso a morte enobrece, veste de galas desconhecidas o pobre corpo absurdo. É que ali está um liberto, embora o não quisesse ser. É que ali não está um escravo, embora ele chorando perdesse a servidão. Como um rei cuja maior pompa é o seu nome de rei, e que pode ser risível como homem, mas como rei é superior, assim o morto pode ser disforme, mas é superior, porque a morte o libertou.

Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis.

Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído.
s.d.



fernando pessoa
livro do desassossego por bernardo soares. vol.II
ática
1982





22 abril 2017

manuel antónio pina / a poesia vai acabar



A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?»    E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —


manuel antónio pina
ainda não é o fim nem o princípio do
mundo calma é apenas um pouco tarde (1969)
algo parecido com isto, da mesma substância
poesia reunida 1974-1992
afrontamento
1992



21 abril 2017

marguerite duras / textos secretos



É sempre quase madrugada. São horas tão
extensas como espaços de céu. É excessivo, o
tempo já não sabe por onde há-de passar.
O tempo já não passa. Dizes para ti próprio que
se agora àquela hora da noite ela morresse, seria
mais fácil, queres dizer certamente: para ti, mas
não acabas a frase.



marguerite duras
textos secretos
a doença da morte
trad. tereza coelho
quetzal
1999



20 abril 2017

yorgos seferis / mas que procuram as nossas almas viajando



VIII

Mas que procuram as nossas almas viajando
no convés de barcos aniquilados
apertadas entre mulheres amarelas e crianças que choram
sem poderem esquecer nem com os peixes-voadores
nem com as estrelas indicadas pelas pontas dos mastros.
Estilhaçadas pelos discos dos gramofones
atadas sem o querer a peregrinações inexistentes
murmurando pensamentos quebrados de línguas estrangeiras.

Mas que procuram as nossas almas viajando
sobre as podres madeiras marítimas
de porto em porto?

Mexendo em pedras partidas, aspirando
a frescura do pinheiro com mais dificuldade cadadia,
nadando nas águas deste mar
e daquele mar,
sem tocar
sem seres humanos
dentro de uma pátria que já não é nossa
nem vossa.

Sabíamos que eram belas as ilhas
por aqui algures onde tacteamos
um pouco mais abaixo ou um pouco mais acima
um espaço mínimo.


yorgos seferis
romance
poemas escolhidos
trad. de joaquim manuel magalhães e nikos pratisinis
relógio d´água
1993








19 abril 2017

jaime rocha / o homem que dorme



E se uma avenida fosse um lago
comprido e a água passasse por
uma turbina e decidisse afundar
a cidade até só o castelo ser visto
dentro de um barco.

Não há tempo
para os vinhos nascerem.

Os dias passam num instante como
o reflexo de um farol num espelho.
O azedo das ruas transforma-se
num cenário que só um jornal
impresso pode descrever_____.

Um homem anda com embrulhos
de plástico. Toda a gente sabe que
dorme na soleira de uma empresa
de candeeiros. É uma sombra,
um rasto.

Mas ninguém se aperceberá
da sua morte.


jaime rocha
voo rasante
antologia de poesia contemporânea
mariposa azual
2015