14 dezembro 2012

edgar allan poe / os sinos




1.
Escutai os trenós com sinos:
De prata, os sinos!
Que mundo de tanta alegria sua música anuncia!
E, retinindo, tilintam
No ar glacial nocturno!
Enquanto, em despique, as estrelas,
Salpicando os céus, cintilam
Com cristalino deleite;
Marcam tempo com aprumo
Como uma rúnica rima,
Nas tintibulações do ritmo—propaladas
Dos balidos dos chocalhos
Desses sinos, sinos, sinos:
Desses sinos que repicam seus badalos.

2.
Escutai das bodas os sinos:
De ouro, os sinos!
Que mundo de tanta harmonia em bonança anunciam!
No ar da noite tão fresco
Seu deleite é como um eco!
Notas de ouro se fundindo
Como um coro!
Canto dúctil que flutua
Até à rola que arrulha
Vendo a lua!
Oh, das celas onde se exala
É tremenda a eufonia que se escoa pelas salas!
Como apela!
E interpela
O futuro!—Como fala
Desse transe que impele
Ao balancear cadenciado
Desses sinos, sinos, sinos!
Dos carrilhões afinados,
Sinos, sinos, sinos, sinos:
Desses sinos que tremulam seus trinados!

3.
Escutai o alarme dos sinos:
De bronze, os sinos!
Que conto de tanto pavor sua turbulência ensina!
No ouvido ferido das Trevas,
Vociferando, gritantes,
De susto não podem falar!
Só sabem guinchar, guinchar
Dissonantes.
Num apelo clamoroso ao fogo todo-poderoso...
Numa irada reprimenda contra o fogo revoltoso,
Saltando alto, mais alto,
Com ânsia desesperada
E propósito obstinado:
Agora—ou nunca, alcançar
A face da lua pálida.
Oh, os sinos, sinos, sinos!
Que afligido conto ensinam
De terror!
Com que rugidos, furor,
Derramam o seu horror
No seio do túrgido ar!
Contudo o ouvido bem sabe,
Pelo estrídulo vibrar,
Como o perigo vaza e sobe...
Sim, o ouvido bem distingue
Pelo altercado ruído,
Por esse uivo diferido,
Que o perigo cresce e se extingue,
Pelo aplacar dos sinos ou por seu irado brado...
Desses sinos...
Sinos, sinos, sinos, sinos:
Desses sinos clamorosos com seu clangor destroçado!

4.
Escutai os dobres dos sinos:
De ferro, os sinos!
Que mundo de ideias tão graves invoca sua monódia!
E na noite sem rumor
Estremecemos de pavor
Ao sentido tão dolente desse tom!
Desse som que se decanta
Da ferrugem das gargantas
Tão rangentes.
E as gentes... ah, as gentes
Que vivem nos campanários
Solitárias,
E que dobrando, dobrando,
A monótona canção,
Se orgulham de estar rolando
A laje no coração...
Não são homem nem mulher...
Nem feras são...
São os Ghouls:
E é seu rei quem dobra os sinos,
E que com eles entoa
O Péan que assim ressoa!
E alegre enfuna o peito
Com esse Péan que ecoa!
Dança ao ritmo, e como troa!
E ao ritmo acerta o rumo,
Marca o tempo com aprumo
Como uma rúnica rima,
Ao Péan que assim ressoa
Desses sinos!
Desvairados realejam
Esses sinos, sinos, sinos...
E, redobrados, arquejam,
Regem tempo com aprumo,
E ele enfuna o peito à loa,
Álacre rima de runa
Dos sinos que vibram, ressoam,
Pulsam sinos, sinos, sinos...
Esses sinos tresloucados...
Sinos, sinos, sinos, sinos:
Sinos que rangem e plangem aos finados.



edgar allan poe
tradução de margarida vale de gato


13 dezembro 2012

martin opitz / epitáfio de um cozinheiro




Como o mundo em geral anda sempre às avessas!
Aqui um cozinheiro seu descanso encontrou,
Que em vida muitos e bons pratos cozinhou.
Comem-no agora os vermes – cru e sem travessas!



martin opitz
o cardo e a rosa
tradução de joão barrento
assírio & alvim
2002


12 dezembro 2012

andréas empeiríkos / a rapariga



  
A casa está a transbordar de alegria
Como uma bilha cheia de leite ao sol
Uma rapariga à janela ocultamente
Dá os seus seios às pombas.

Repletos palpitam os seios
Espetam-se os mamilos
Titilam-nos as aves
E subitamente o leite transborda.



andréas empeiríkos
a ternura dos seios
trad. de manuel resende



11 dezembro 2012

fernando echevarría / prólogo




Do outono que termina
nenhuma coisa é perto.
Cada uma culmina
em tudo ser aberto

e claro movimento
sem uma qualquer história.
Que ser no pensamento
é obra sem memória.

Ou, se memória fosse,
da longa caminhada
guardaria o que trouxe

- a paz de ser pensada
e uma mágoa doce
de outono e de mais nada.


Aonde formos iremos
pensando esta luz que passa.
Esta luz que, agora, vemos
molhada além da vidraça

mas que, pensada, ilumina
outro rio e outra rua
e muda mesmo à retina
o modo de se ver sua.

Sem que, por isso, no rio
mude, ou na rua, o passar.
Tudo segue o mesmo fio

em retina igual. Só o ar
tem um contorno mais frio
na margem de ver passar.



fernando echevarría
introdução à filosofia
edições nova renascença, porto
1981




10 dezembro 2012

herman de coninck / chegou com a alegria desajeitada…


  

Chegou com a alegria desajeitada de uma camponesa
de quatro anos. Tem o olhar ríspido e coquette
da minha mãe de 75 anos aos quatro.
E quando essa mãe morreu, tentou
ser tão sensata que a sua cabeça
se inclinava enquanto dizia: «quando eu
morrer, hei-de chorar imenso, sabes.»

Não precisa de pai a não ser para as bonecas.
Como é que hei-de fazer, pergunto. «Sentares-te aqui
na cadeira, e leres o jornal,», disse ela. Brinca à vida,
uma horinha, e depois a outra coisa.
Ela ensina-me o que é a poesia: de um nevão
seguir apenas um floco. Com ela aquilo que quero
é sempre possível: que seja hoje.




herman de coninck
os hectares da memória
trad. colectiva, rev., complet. e apresent. nuno júdice
poetas em mateus
quetzal
1996



09 dezembro 2012

alberto caeiro / às vezes


  
Às vezes, em dias de  luz perfeita e exacta,
Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza às cousas.
   
Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe
Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então por que digo eu das cousas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as cousas,
Perante as cousas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!



alberto caeiro


08 dezembro 2012

gil t. sousa / caçar a água


  
10

caçar a água
no veludo escarlate da sede
pela madrugada
no coração tenro
da neblina
antes que a maré suba
os labirintos

aos pássaros
revelar a pedra
ensinar o lado de dentro
do musgo
a curva macia
dos seixos



porque a loucura
deve ser rasgada por dentro
com as mãos cravadas numa ponte
acesa ao abismo


gil t. sousa
água forte
2005 



07 dezembro 2012

andre breton / um homem e uma mulher




Um homem e uma mulher absolutamente brancos
Lá no fundo do guarda-sol vejo as prostitutas maravilhosas
Com trajes um pouco antiquados do lado da lanterna cor dos bosques
Levam a passear consigo um grande pedaço de papel estampado
Esse papel que não se pode ver sem que o coração se
nos aperte nos andares altos de uma casa em demolição
Ou uma concha de mármore branco caída no caminho
Ou um colar dessas argolas que se confundem atrás delas nos espelhos
O grande instinto da combustão conquista as ruas
onde elas caminham Direitas como flores queimadas
Com os olhos na distância levantando um vento de pedra
Enquanto imóveis se abismam no centro da voragem
Nada se iguala para mim ao sentido do seu pensamento desligado
A frescura do regato onde os sapatinhos delas
banham a sombra dos seus bicos A realidade daqueles molhos de feno cortado
onde desaparecem
Vejo os seus seios que abrem uma nesga de sol na noite profunda
E que se abaixam e se elevam a um ritmo
que é a única exacta medida da vida
Vejo os seus seios que são estrelas sobre as ondas
Seios onde chove para sempre o invisível leite azul



andre breton 



06 dezembro 2012

oscar niemeyer (1908-2012)






Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado


chico buarque
construção



05 dezembro 2012

fernando lemos / não há tempo




Não há tempo
        há horas
Não há um relógio
        há
        hábitos que
me habitam

O poema dói
o ponteiro corta
a hora que queima
a morte simula

respira
para não me distrair



fernando lemos
a única real tradição viva
antologia da poesia surrealista portuguesa
perfecto e. cuadrado
assírio & alvim
1998



04 dezembro 2012

ângelo de lima / eu ontem vi-te...


  
Eu ontem vi-te...
Andava a luz
Do teu olhar,
Que me seduz
A divagar
Em torno a mim.
E então pedi-te,
Não que me olhasses,
Mas que afastasses,
Um poucochinho,
Do meu caminho,
Um tal fulgor
De medo, amor,
Que me cegasse,
Me deslumbrasse,
Fulgor assim.



ângelo de lima
poesias completas
editorial inova
1971


03 dezembro 2012

ezra pound / portrait d' une femme


  

O teu espírito e tu são o nosso mar dos Sargaços,
Londres passou rápida por ti durante todo este tempo
E barcos brilhantes deixaram-te isto ou aquilo em paga:
Ideias, velhos mexericos, restos banias de tudo,
Estranhos mastros de sabedoria e baças mercadorias de valor.
Grandes espíritos te procuraram - à falta de outrem.
Sempre ficaste em segundo lugar. Trágico?
Não. Preferias isso ao costumeiro:
Um só homem insípido, babado e embotante,
Um espírito mediano, com um pensamento a menos cada ano.
Oh, tu és paciente, tenho-te visto sentada
Durante horas, onde algo poderia ter vindo à superfície,
E agora pagas. Sim, pagas muito bem.
Tu és uma pessoa com algum interesse, quem te procura
Retira um estranho lucro:
Troféus recuperados do mar; uma qualquer sugestão curiosa;
Factos que a nada conduzem; e uma história ou duas,
Prenhes de mandrágoras ou de qualquer outra coisa
Que podia vir a ser útil, e, contudo, nunca o é,
Que nunca se arruma a um canto nem mostra utilidade,
Nem vê chegar a sua hora no tear dos dias.
Antigas coisas sem brilho, vistosas, admiráveis;
Ídolos e âmbar pardo e raros embutidos,
São estes os teus bens, a tua grande riqueza; e contudo,
Apesar de todo este tesouro marinho de objectos caducos,
Estranhas madeiras meio molhadas e novas bugigangas mais
                                                                               [ berrantes,
No lento boiar de diferente profundidade e luz,
Não! Não há nada! No conjunto de tudo,
Nada que seja propriamente teu.
                 Contudo, isto és tu.





ezra pound
leituras poemas do inglês
trad. joão ferreira duarte
relógio d'água
1993



02 dezembro 2012

fernando luís sampaio / ao entrar no bar



Deixa a tua mão renascer na curva
Da paisagem, nos alicerces desertos
Da paixão ─ como as longas cartas que escrevias ─ ,

Deixa que os lábios sobrevoem
As palavras incapazes de alegia
─  que me calaste no auge do beijo ─ ,

Deixa, por uma vez, que tudo flua
Como o fogo na minha mão
E se escoe pelos corações mais queimados
Pela vida.

Deixa, numa manhã assim,
Sem razão aparente e aparada
Nas pontas que a tua mão
Corrija a órbita desta paisagem

Que pronuncia a indecifrável
Respiração da morte.




fernando luís sampaio
relâmpago
revista de poesia 29-30
out 2011 abril 2912