01 abril 2014

manuel antónio pina / como desenhar uma casa



Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente,
a mãe para sempre morta.

Anoiteceu, apagamos a luz e, depois,
como uma foto que se guarda na carteira,
iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.

Protege-te delas, das recordações,
dos seus ócios, das suas conspirações;
usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.

Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.



manuel antónio pina
como desenhar uma casa
todas as palavras
poesia reunida
assírio & alvim
2012



1 comentário:

Pedra do Sertão disse...

Não sou boa desenhista de casas, mas gostei da perspectiva para construí-la com palavras...

Abraço

Pedra do Sertão

www.pedradosertao.blogspot.com.br