28 abril 2013

franz kafka / diários




1912, 12 de março

No elétrico que passou rapidamente estava sentado a um canto, a face contra a janela, o braço direito estendido ao longo do encosto do banco, um jovem com o sobretudo desabotoado, muito largo para ele, a olhar para o comprido banco vazio. Tinha ficado noivo hoje e não conseguia pensar noutra coisa. O facto de estar noivo dava-lhe uma sensação de conforto e com esta sensação ele olhava de vez em quando para cima, para o tecto do carro eléctrico. Quando o condutor lhe veio vender o bilhete, encontrou facilmente e no meio do tilintar de moedas a moeda exacta, com um gesto só colocou-a na mão do condutor e pegou no bilhete com dois dedos que ele abria como se fosse uma tesoura. Não havia nenhuma ligação verdadeira entre ele e o carro elétrico e não teria sido uma surpresa se, sem ter usado a plataforma e os degraus, ele tivesse aparecido na rua e tivesse ido no seu caminho a pé e com o mesmo ar.

Só o sobretudo grande de mais existia, tudo o resto foi imaginado.




franz kafka
diários (1910-1923)
trad. maria adélia silva melo
difel
1986



1 comentário:

Aline Chrispim disse...

Olá, muito legal o blog...Estou seguindo.

O meu, de poesias :D
brisaevento.blogspot.com.br

Beijoo