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20 abril 2023

leopoldo alas / com este sol

 
 
Com este sol que me descansa a alma
(a luz, a nitidez do céu,
esses aromas naturais
que desdenhei de há uns tempos até agora)
é fácil esquecer-me que o mal resiste
nos corações, nos olhares prudentes
dos homens cansados,
em tantos abismos das cidades,
nos dias que passam obscenos
sem se revoltarem,
tal como esses criados orientais
que, sem perder o sorriso, conspiram.
Com este sol que me descansa a alma.
 
 
 
leopoldo alas
poesia espanhola de agora vol. II
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
1997
 



02 setembro 2022

leopoldo alas / o tempo nos olhos

 
 
Não é o tempo o que me preocupa ter perdido
quanto os olhos que tive, limpos. E o cheiro do mar,
um rumor de vozes, a praia que sem saber porquê
me figuro intensa (mesmo sabendo que já então
era incómoda a areia e que queimava).
E lamento ainda mais que tudo aquilo que nunca sucedesse,
que tantos dias quanto suponho que vivi não existam,
nem sequer na memória. Porque não posso lembrar-me
de nada. e é inútil evocar a imagem de sempre:
areia muito fina que se escapa entre os dedos da mão.
Porque é mais triste que uma imagem que se escape o tempo
e que, farto de demónios, o teu olhar se apague.
E o cheiro do mar, um rumor de vozes, a praia…
 
 
 
leopoldo alas
poesia espanhola de agora vol. II
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
1997