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06 abril 2016

dario fo / os gregos não eram antigos (excerto)




Há livros que li e reli vezes sem conta, textos de escrita sublime e essenciais para quem deseja aproximar-se da verdade dos factos. Infelizmente, não me agradam apenas a mim, mas também aos amigos que frequentam a minha casa e o estúdio. Desaparecem... e sou obrigado a comprá-los de novo. Tenho de aprender com um meu antigo professor, que impedia os furtos prendendo os livros com correntes às estantes da biblioteca. Um dos volumes sujeitos a desaparecimento é um ensaio sobre a Grécia Antiga de Moses I. Finley.

Tranquilizem-se: não vos vou lê-lo, queria apenas indicar-vo-lo. Se por acaso puderem dar-lhe uma vista de olhos, descobrirão uma história completamente inédita sobre os helenos: fortes tensões sociais, intrigas arcaicas dos políticos, clientelismo do tipo italiano, corrupção, criminalidade dos dirigentes da primeira democracia humana. E estamos completamente antes de Cristo!

Temos de reconhecer que muitos dos nossos governantes são de uma honestidade discutível, sim, mas cultos: imitam sempre «os clássicos».

Mas como é que nos textos de outros historiadores da Antiguidade nunca se encontram, a não ser casualmente, estes testemunhos de extorsões e roubos? É apenas urna questão de diferença das fontes a que recorrem. Em poucas palavras, todos os historiadores da Antiguidade repetiram Heródoto, Tucídides, Plutarco, Políbio…

Não se assustem: não estou a exibir erudição — aprendi isto nas palavras cruzadas.

Pelo contrário, o nosso Finley afastou logo os historiadores clássicos, declarando claramente que os textos não passavam de patranhas sem fundamento, ao serviço da partidocracia, e que as únicas testemunhas dignas de crédito e honestas daquela época eram os cómicos, os dramaturgos satíricos gregos, isto é, Aristófanes, Arquiloco, Colofone... Para já não falar de Luciano de Samotrácia.

Por favor, não se impressionem... Estes sei-os de memória. São os autores de quem li as histórias e as comédias desde o tempo em que frequentava Pinóquio e Sussi e Biribissi.

Para dar razão a Finley, basta ler algumas das tiradas satíricas daqueles autores.

Vejamos Aristófanes, em As aves: «Os nossos mercadores são de uma avidez abjecta: para além de nunca pagarem impostos, para lucrarem mais, matariam melgas para darem um capote às moscas.» Não está mal, pois não?

E Arquiloco: «É certo: Epilone, o Arconte (isto é, o ministro das obras públicas de então), é um ladrão: vendeu a empreitada de restauro das velhas cloacas a um empreendedor incapaz e criminoso, de modo que hoje, quando chove, as cloacas rebentam e Atenas é inundada por esgotos fétidos. Ontem caiu um dilúvio — o rio fedorento transbordante invadiu o assento da assembleia e o gabinete onde Epilone opera e causa danos.

O responsável pelas cloacas permaneceu na ratoeira. Encontraram-no atolado até ao pescoço em excrementos. É mesmo verdade que por vezes o deus emprega a parte mais baixa de si para atingir os malvados.»

E outra vez Aristófanes: «Catino andou na guerra e apresenta-se em todas as ocasiões com o elmo emplumado dos combatentes. Dizem que, quando vai a casa da amante exibir o falo, se despe todo mas deixa o elmo na cabeça! Aquele Catino: que cabeça dura!» É Aristófanes, hein!

Pois Finley garante-nos que estes testemunhos, definidos pelos académicos como «boutades de ébrios», são documentos históricos mais importantes e fidedignos que todas as patranhas produzidas pelos vários Heródotos e Plutarcos, sobre as quais a censura não intervinha. Eu disse censura? Existiria já, porventura, esta santa instituição no tempo dos dórios e dos jónios? É verdade que afirmam ter nascido com o Homem, ou mal foi instituída a lei de Deus. Um historiador tentou demonstrar que ainda antes do nascimento do teatro existia já a organização censória, e que foram exactamente eles, os censores, a inventar o teatro, para depois terem a possibilidade de agirem e de se mostrarem úteis ao poder.

O facto é que denúncias e processos eram o pão nosso de cada dia, em Atenas. Todos os autores satíricos acabavam inevitavelmente por ser levados a tribunal, instituído para defender a moral vigente. Assim, Aristófanes conheceu a prisão e arriscou-se mesmo a ser condenado à pena de morte por ter satirizado veementemente Catino, caído em batalha e oferecendo o seu peito ao inimigo. Foi pena a seta mortal tê-lo atingido nas costas! O poeta salvou-se graças à intervenção de alguns intelectuais de bom senso e espírito, coisa muito rara mesmo no tempo dos magníficos Gregos.

Também Aristófanes se viu metido em grandes sarilhos quando, apresentando As mulheres no parlamento, se permitiu descrever Atenas reduzida a uma cidade privada de homens válidos e dignos. Estamos no século IV antes de Cristo e o exército protegido por Atena, deusa da vitória, fora destruído pelos siracusanos, aliados de Esparta, durante a campanha de Sicília (Magna Grécia). Diz-se que onze mil homens, todos na flor da idade, não regressaram à pátria. Mesmo neste caso, os historiadores da época não falaram de guerra, pilhagem e saque, mas de defesa da civilização e da democracia, uma vez que a expedição visava, justamente, impor a democracia àquele povo bárbaro e dominado por tiranos.

Frequentemente, nas comédias de Aristófanes era o próprio autor em pessoa que, colocando um máscara grotesca chamada Bufão, apresentava a situação da farsa representada. O Bufão entrava em cena no intervalo entre actos, insultando o público, dizendo piadas e proferindo perfidamente, como um verdadeiro Bufão, trivialidades maliciosas.

Em As aves, uma das mais famosas comédias satíricas, encontramos um monólogo no qual o actor entra em cena e, primeiro, começa a adular o público; depois, pouco a pouco, inverte a situação e cobre-o de impropérios, acusando-o de revelar-se ignorante, fútil e incapaz de compreender as alusões mais óbvias. Por fim, apercebe-se de que alguém ri e, então, lança comentários e chistes sobre aqueles que riem fora de tempo e a despropósito, fazendo pouco das pessoas que haviam ido ao teatro levando consigo os escravos mascarados de mulheres (habitualmente, os escravos estavam proibidos de entrarem nos teatros): fazem-se acompanhar dos escravos, afirma, para que estes lhes expliquem o significado das deixas satíricas. Mas eis o texto:

Bufão (entrando em cena como que furtivamente e olhando extasiado à sua volta): Ah, ah, ah, oh, meu Deus, que público extraordinário! Já passei por todos os teatros, do Pireu ao Helesponto, e poucas vezes me vi perante um público assim! Incrível! Sonho convosco até de noite... (Muda subitamente de tom) Vocês são um pesadelo! Que têm na cabeça? Será possível que não consigam compreender um jogo de palavras ou uma alusão alegórica? Meu Deus, as melhores deixas satíricas deslizaram sobre o vosso cérebro como toucinho sobre manteiga! Finjam, ao menos, que percebem: temos hoje estrangeiros na assistência — que bela figura fazemos à frente deles! Riam-se! (Vira-se para um lado e para o outro, como que à escuta) Não, assim não, ao acaso, mas na altura da deixa. Esperem: eu faço-vos um sinal! Assim, com um estalo de dedos.., e vocês: ah, ah, ah! (A correr, dirige-se para a direita até ao limite do proscénio) Mas, valha-me Deus, que está aquele a fazer, todo agarrado à mulher, com as mãos em todo o lado? Peço-te: vira-te também para aqui, de vez em quando! Podes deixar as mãos aí em baixo, mas olha para mim um segundo! E aquele que está há uma hora a limpar o nariz: vai lá dentro, vai até ao cérebro! Que esperas encontrar? Convence-te: não tens nada no crânio. Tira o dedo do nariz! Eh, um momento, tu, aí, que te riste. Sim, tu agora ris-te do outro, mas o que é que tens estado a fazer? Há uma hora que coças os tomates, o que é que tens? Todos os insectos chatos que estavam no Areópago acabaram por se instalar entre as tuas coxas!! Ah, ah, ah!!! Daqui a pouco serás transportado em voo até Júpiter! Um pouco de atenção, por favor! Não se consegue continuar com esta algazarra, não se consegue sequer representar... Se tivesse ido à Beócia, que é a Beócia, pátria dos beócios... teria ficado mais satisfeito, por certo! A melhor coisa seria lançar-vos punhados de amendoins, como se faz aos macacos.

Ah, ah, ah... pelo menos, ouviríamos aplausos no momento em que fossem arremessados em quantidade, para recolherdes às mãos-cheias! Oh, finalmente alguém se riu! Ah, ah, ah, não... não é um espectador: é um vendedor de amendoins! Ofendi-vos, porventura? Tendes razão: humilhei-vos; não, exagerei, não... Sim, admito: em Atenas também há pessoas inteligentes. Não é para vos gabar, juro: conheço-as, são pessoas argutas e de raciocínio finíssimo. (Pausa)

Mas elas não estão aqui esta noite, infelizmente, e sente-se a sua falta! (Ri a bandeiras despregadas e depois volta-se para uma pessoa das primeiras filas) Que vieste aqui fazer?... Ah, bem, porque... parece bem. «Vou ao teatro, logo, sou inteligente.» E quem te disse isso? À tua mulher, mais instruída, mais esperta, deixa-la em casa... As mulheres... não podem vir aqui, ah, ah, ah... É inútil virem ao teatro porque não atingem tão longe... e ficam bem contentes por ficarem sozinhas em casa — sozinhas é uma maneira de dizer. Quem te impede?... Se te sentes tão indignado, sai! Volta para casa!!! Sim, corre, mas, se te apressares, encontrarás um espectáculo extraordinário: a tua mulher nua com o criado, que se diverte, ele sim, de um modo inteligente, ah, ah, ah! (Aplausos)

Mas de onde veio a ideia de As aves?

A comédia, para quem não se recorda, é sobre dois atenienses que decidem abandonar a cidade sob o pretexto, mais do que moderno, do asco das infâmias, dos jogos políticos baixos e dos processos orquestrados. Parece passar-se na Itália dos nossos dias, com os governantes actuais e Andreotti à cabeça de todos que, como se sabe, vivia já então e fazia parte do parlamento ateniense. A sua figura reconhece-se em algumas pinturas em vasos áticos, no acto de fuga, com um extraordinário golpe de rins, ao enésimo inquérito sobre jogos de poder altamente perigosos. Longa vida ao inqualificável génio do equilibrismo político, verdadeiro malabarista que consegue, sem nunca cair da poltrona, jogar com a moral, a religião, o compromisso, e não revela escrúpulos com a máfia e a justiça.

As personagens da comédia, dizíamos, enojadas com o andamento político-patifório, partem com o objectivo declarado de encontrarem uma cidade ideal. Decidem parar num mundo intermédio, entre a terra e o mundo dos deuses, que é o das aves, onde, pelo menos, vigora um sistema de vida baseado em certas honestidades que os homens não possuem. Aprendem a voar, munindo-se de asas amplas, lançando-se no vento e executando reviravoltas verdadeiramente acrobáticas. Graças às correntes ascendentes, sobem ao alto e chegam ao Olimpo, onde são recebidas pelos deuses. Naquele paraíso de felicidade suprema, descobrem, infelizes, que os deuses copiaram dos homens o pior que com eles podiam aprender: as fêmeas divinas traem e entram em combinações de uma sexualidade desbragada, impossível até de representar. No que toca aos deuses masculinos, a corrupção, a hipocrisia e os embustes são o pão nosso de cada dia. Aos nossos dois viajantes não resta outra solução que não lançarem-se no vazio e flutuarem entre as nuvens em busca do mundo das aves, sua última esperança. Inútil será dizer que mesmo na sociedade volátil encontram o contrário do que esperavam. Em palavras modernas, a prevaricação, a violência e as desigualdades mais brutais: um grande número de pardais, tordos e tentilhões sujeitos a maus tratos de toda a espécie pelas grandes aves de rapina, incluindo darem consigo transformados em banal refeição quotidiana dos alados nobres e poderosos.

Os actores cómicos apresentam-se caracterizados e mascarados de águia, falcão e abutre no momento em que se lançam sobre uma garça-real, um grou e um cisne. Agridem-nos, arrancando-lhes as penas com uma ferocidade indizível. Os dois visitantes humanos vêem-se rodeados de plumas e penas, como se aquelas aves de rapina estivessem a despedaçar almofadas. Tentam fazer cessar a orgia, mas, como resultado, são por seu turno confundidos com aves de alimentação e vêem-se obrigados a bater em retirada. Acalmada a confusão, regressam ao local do festim e, com veemência, acusam as três aves de rapina do massacre. A defesa das aves imita a linguagem dos políticos humanos. Antes do mais, contra-atacam, recordando aos dois convidados que aquelas aves são um símbolo, mesmo para a raça humana, de coragem e de glória. Os elmos dos heróis gregos exibem sempre uma águia ou um falcão: o seu deus máximo, Zeus, oferece os próprios ombros às aves de rapina, como poleiro, assim como Atena. «E não se esqueçam de que nós, os grandes emplumados, fomos criados pelos deuses exactamente para evitar o risco de povoamento excessivo do céu. Sem a nossa atitude agressiva, o universo seria sulcado por bandos de aves comuns, em tal número que obscureceriam o sol. De resto, é o que fazem também vocês, homens. O que são as guerras, senão um expediente irrepreensível para reduzir a excessiva propagação das raças de menor valor e evitar que estas se tornem hegemónicas, sufocando na multidão as raças eleitas e indicadas pelos deuses como aquelas às quais é dado governar e gozar os frutos deste mundo?»

Notaram certamente que nas comédias dos grandes sarcásticos gregos encontramos argumentos e situações que abordam a política e o poder, não para lhes tecer elogios, mas para denunciar as suas infâmias. Por conseguinte, a sátira nasce sempre da tragédia. Na base da comicidade grotesca há sempre uma situação dramática. Nas farsas gregas mais famosas tudo gira em torno de injustiças paradoxais, embustes criminosos, violências perpetradas sobre mulheres e crianças inocentes, massacres de populações, destruições de cidades e prevaricações de tiranos com o consequente desprezo pelos direitos civis e pela liberdade: a dor e o desespero são o seu motor essencial. Por outro lado, quando sobre o palco se encenam comédias que propõem como tema a mofa em si mesma, o chiste sobre defeitos físicos da personagem visada, alusões à sua insuficiência erótico-sexual, as traições das mulheres suportadas com alegria, como se fossem prendas... então, não se trata de sarcasmo, nem político nem moral, mas apenas de zombaria, que é uma coisa completamente diferente.

Para finalizar, o jogo satírico ofende e indigna sempre o poder; a zombaria, diverte-o.

(…)


dario fo
o amor e o escárnio
trad. maria de fátima st. aubyn
gradiva
2008