06 maio 2022

joaquim manuel magalhães / um pano turvo

 
 
 
É bom acordar a meio das horas
e não estar ali só por encontro.
A névoa donde sai uma defesa amedrontada.
Abro o livro com o velador, sem sobressalto
volto a adormecer. A outra cama
com a respiração, será sonho?,
de quem dorme sem pressentimentos.
 
Só depois da noite, nos hangares,
tijolos, tubos, ferragens sem deriva
me trazem o que é a vida; a que se contrapõe,
como dantes diziam, à verdadeira.
De quase tudo salta um estilhaço,
um cerro de fornalha que naufraga
por encontros que no longe constroem
sofrimentos tirados à pressão,
com muita espuma, cuspo a casca dos tremoços.
Por aí me dirijo ao uso destinado.
 
O estendal dos prédios desfigura
a linha do frio, o monte que fora civil.
Comboios regionais meio desfeitos,
pontões de madeira, estradas de pó batido,
tudo lento, com a medida sépia do tempo,
disposto para nos dar desvalor.
Escrevo para não esquecer:
o silvo de um muro, uma chave quebrada,
tudo o que da alameda já não vejo
e quando descia do alto do adro
para dentro das tuas mãos.
 
O maior inimigo do homem
sobe do invisível e fica baixo
sem causar sinais
até ao instante em que desmoronamos.
 
O país cada vez mais longínquo.
Descobre-se, no próprio crematório
da vitória abrupta de tantos,
que nele nenhuma coisa é nossa.
Quem é, quem são, que fazem
ninguém conhece e nada nos diz.
Vias, detritos, uma gente pesada
que sai de carroçarias e regressa,
ao fim de tempo farpado, à escuridão
em que tudo nos soterra. Seu destino
a devastada aceitação dos que por votos
lhes dão o caos e a mediania.
 
A noite, quando há luz ainda,
antes das estrelas sujas,
calca vestígios de se ter partido
para o cansaço de outros lugares,
o airo forçado nas arribas com óleo sem rota,
pinhais que já não voltam a acender-se,
fábricas de chapa sanguinolenta.
 
E eu ouço um coro de sombras dos escusos
que preferem a peste, a separam em clínicas de cal
para fugirem à agressão dos murmurros que avançam
em impropérios inúteis de combater.
 
E tu, minha única companhia,
quem és? Não entendes quanto sofre
o teu mendigo, eu, enquanto o vês fechado
com o livro a meio da sua noite,
sem a sombra de terra da azinheira,
sem o loendro num jardim.
Embora de face nos agarremos
e prontos para o entorno nos encontrem
todos os que excluem.
Um homem diante de dois homens
amando-se no centro da desordem,
por esse amor tecendo melodia.
Além da nuvem transitória que ceava,
além da asfixia.
 
Tens gume ou gelo para aniquilar
quem fez deste país este país?
embora seja tarde. Embora, na realidade
e sempre,
seja primeiro a nós que matarão.
 
Outrora pude rir-me dos bairros malfazejos
porque encontrei a blindagem do teu rosto
 encostada a cada ponte que levava
de um lado do mundo ao outro lado da desolação.
 
O seu cabelo lançava uma sombra
sobre a manta lilás
e sobre a vinha.
 
 
 
joaquim manuel magalhães
alta noite em alta fraga
relógio d´água
2001




1 comentário:

Arthur Claro disse...

Muito interessante esta poesia.

Arthur Claro
http://www.arthur-claro.blogspot.com