14 novembro 2017

roland barthes / um pequeno ponto no nariz



5.
O discurso de amor é, normalmente, um envelope liso colado à Imagem, uma luva macia que rodeia o ser amado. É um discurso devoto, cheio de bons sentimentos. Quando a Imagem se altera, dilacera-se a capa de devoção; um tremor modifica a minha própria linguagem. Ferido por uma motivação que surpreende, Werther encara de repente Carlota como uma espécie de comadre, incluindo-a no grupo das companheiras com quem ela tagarela (ela já não é a outra mas sim uma outra entre outras) e diz então desdenhosamente: «minhas mulherzinhas» (meine Weibchen). Uma blasfémia assoma bruscamente aos lábios do sujeito e vem destruir a bênção do apaixonado; está possesso de um demónio que fala pela sua boca, de onde saem, como nos contos e fadas, não flores, mas sapos. Horrível refluxo da Imagem. (o horror da destruição é a angústia de perder.)


roland barthes
fragmentos de um discurso amoroso
trad. isabel pascoal
edições 70
2017




Sem comentários: