26 novembro 2021

adília lopes / no more tears




 
Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa da minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos grande
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar
 
 
 
adília lopes
dobra
poesia reunida
II. as meninas exemplares
assírio & alvim
2021





 

25 novembro 2021

fernando pinto do amaral / escotomas

 
 
4.
A mão que embala o mundo traz ao colo
a música de frases tenebrosas
a arder na minha boca. A língua fala
de tudo o que não sei: palavras rasas
entre lábios sem alma, que revelam
a natureza morta numa casa
onde a luz fica acesa em cada sala
até de madrugada. Tudo é belo
quando a vida mal vibra e mal nos pesa,
quando o silêncio abre as suas asas
sob o divino hálito que engole
o aroma das rosas.
 
 

fernando pinto do amaral
às cegas
relógio de água
1997




24 novembro 2021

al berto / eras novo ainda

 
 
1
 
pelo lado norte vem o cortante vento do mar
o dia acaba de se agasalhar no musgo das acácias
fico imóvel
atento ao estalar nocturno das madeiras
 
a roupa foi deixada em cima da cadeira
cobre-se de penumbras… a casa treme
com a explosão da pedreira
 
viro-me para a terra alegre dos sonhos
invento uma lua um inverno só para mim
 
donde chegarão aqueles barcos de sobressalto?
 
um dedo arde na poeira das vidraças
uma planta corrói o silêncio dos corredores
debruço-me para a velha mesa encerada
uma aranha arrasta-se sobre a folha de papel
espeto-lhe o aparo… escrevo
a crueldade das palavras que te cantam
 
tento acender outras imagens devoradas pelo tempo
mas estou confuso e definitivamente só
 
de que lado da casa rebentará o novo dia?
em que arrecadação escura sossegará o amor?
 
resta-me escancarar a porta da casa
e sorrir a todos os desconhecidos
 

 
al berto
eras novo ainda 1981/1982
o medo
assírio & alvim
1997






 

23 novembro 2021

jacques roubaud / meditação de 8/5/85

 
 
 
Todos os fins de tarde
 
O vector de luz atravessa
 
A mesma vidraça
 
Afasta-se
 
E a noite
 
Leva-o
 
Até onde te escondes
 
Invisível
 
Na espessura
 
 
 
 
jacques roubaud
alguma coisa negro
trad. josé mário silva
tinta-da-china
2016





 

22 novembro 2021

carlos poças falcão / sinais

 
 
Porque as palavras servem para um mercado de coisas claras, mas para as questões cegas são elas o próprio selo da cegueira. Que fazer com a experiência da incerteza? Ela é a justa provação – e entretanto os sinais tombam como poeira sobre os campos.
 
 


carlos poças falcão
arte nenhuma
poesia 1987-2012
opera omnia
2012






21 novembro 2021

maria amélia neto / meditação sobre sísifo

 
 
Vi-o de novo,
Pela alquimia ancestral da solidão.
De novo se afundou no tempo
A pergunta desde sempre murmurada,
E o fogo crepitou suavemente
E queimou, uma a uma,
As horas da noite.
 
Trazemos na retina a eternidade.
Da aurora
Conhecemos os sinos,
Os planetas adormecidos,
O rio coberto de junquilhos mortos.
Do resto do tempo
Conhecemos o orgulho,
A lucidez desumana,
A tela por pintar,
E o ruído subtil do medo.
 
Aprenderemos a crescer ao lado das roseiras?
A saciar de sol a demência do vazio?
A destruir as velhas raízes?
 
Fluido, fluido é o cerco da solidão.
 
 

maria amélia neto
equinócio
1962

 




20 novembro 2021

antónio gedeão / lágrima de preta

 
 
Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
 
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
 
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
 
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
 
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
 
nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
 
 
 
antónio gedeão
máquina de fogo
1961




 

19 novembro 2021

paavo haavikko / agora as noites são longas

 



 

 
Agora as noites são longas,
          um breve tempo,
                    quando a penumbra cai sobre a pele,
quando o alento de alguém se confunde com o
                                         cabelo de alguém.
 
 
 
        Puut, kaikki heidän vibreytensä, 1955
 
 


 
paavo haavikko
o mundo adormecido espera impaciente
antologia de poesia finlandesa
trad. amadeu baptista
contracapa
2021

 






18 novembro 2021

gastão cruz / assim nos despedimos

 
 
Assim nos despedimos do violento
som gasto e demorado com que as armas
se despedem agora do outono
assim começa e cessa
 
a solidão na zona destruída
pelos seus acidentes pela demora
da palidez que estende
sobre os dias e noites o desgaste
 
da luz e das palavras
assim nos despedimos das feridas
brevíssimas do tempo sobre o corpo
 
assim nos despedimos do violento
som breve com que as armas de despedem
agora do outono
 
 
 
gastão cruz
as aves
1969





17 novembro 2021

rené magritte / o homem do rosto sem caminho

 
 
 
     Toda a gente se parece com ele mas os seus olhos estão atentos à cidade e ao campo também. É dono das recordações, pormenoriza as aparências. O seu sonho é infalível.
 
 
 
 
rené magritte
sonhador definitivo e perpétua insónia
uma antologia de poemas
surrealistas escritos em língua francesa
trad. regina guimarães
contracapa
2021







16 novembro 2021

fiama hasse pais brandão / da fala

 
 
 
Quando ainda não sabia as palavras possíveis
para passar entre voz e silêncio dos outros,
tal como entre troncos das florestas mudas,
eu falava com as nuvens que vinham
sobre nós a cantar, de trémulas asas,
e aspergiam os aromas do extâse.
 
 

fiama hasse pais brandão
as fábulas
quasi
2002








15 novembro 2021

r. lino / palavras do imperador hadriano no princípio do sono

 
 
cortados os olhos em sono aberto
pelas pálpebras se me ferem os dias
e o teu corpo vejo
desfeito entre lençóis:
sombras de dentes
cravados pelos ombros, sinais do tempo
no rebordo das manhãs.
a mim, no poder, me usaste tu
mais do que a ti, no amor, eu usei.
caminhos e túnicas
por iguais desígnios eu tive
e sobre uns e sobre outras
me alonguei
ferindo de atenção pelos olhos
o corpo como conquista.
antinöé é – no entanto –
teu eco e não minha vontade
de lutar contra a morte.
enquanto percorro esta alegria
de saber que, morto tu,
em mim a vida sinto
para te saudar,
ferem-se-me os dias pelas pálpebras
em sono aberto…
 
 
 
r. lino
livro de lentidão
políptico
companhia das ilhas
2016





 

14 novembro 2021

irene lisboa / outono, um dia

 
 
Cidade, velha cidade,
a ti regresso!
 
Outono, voltaste,
mas nada me trazes,
nem gostos,
nem lembranças,
nem saudades…
 
Nunca tive saudade!
A minha pena,
dor de não ter,
ou de lembrar,
foi sempre rápida e amarga,
nunca dolente,
como é a saudade…
Engano-me?
 
Enfim, outono,
Voltaste! sentimos-te.
Amável, caricioso tempo,
o mais suave do ano!
E eu voltei, também,
aqui estou…
como um molusco
agarrado à concha,
adaptado,
calmo,
indiferente.
 
Passou tempo…
dias, meses,
que me não remoçaram
nem agitaram.
Durante eles vi o mar.
 
O mar é formoso.
Mais formoso
que as casas e as ruas…
Quanto as estranho!
Noto.
Escuras, desiguais!
¿Mas que me importam as casas
e até o mar?
Tudo são quadros
e solidão.
 
É grandioso o mar.
Belo, mas confrangedor…
violento, monótono.
 
Mas que estranheza há em mim,
que há em mim?
 
Há bocado,
daquela janela,
vi uma gaivota.
Tudo me parecia incaracterístico.
Mas a gaivota
lembrou-me o mar…
 
Ó, estar deitada na areia,
e ver passar por cima,
longe,
numa onda de sol,
as gaivotas brancas,
de asas abertas,
refulgentes,
avançando sempre
e parecendo imóveis…
é ver uma coisa ideal,
quase irreal.
 
As gaivotas…
 
Nada! Nem elas,
nem o sol,
nem a névoa,
nem as rochas,
nem a água
têm vida como nós,
nos interessam!
Entristecem-nos…
 

 
irene lisboa
um dia e outro dia…
poesia I
obras de irene lisboa  I
editorial presença
1991