24 setembro 2019

gertrude stein / um retrato de um




Harry Phelan Gibb


     Algum um sabendo que tudo é saber que algum um é alguma coisa. Algum um é alguma coisa e está conseguindo esperar essa coisa. Está sofrendo.
     Está conseguindo esperar e está conseguindo dizer que isso é alguma coisa. Está sofrendo está sofrendo e conseguindo esperar que conseguir dizer que está conseguindo esperar é alguma coisa.
     Está sofrendo, está esperando, está conseguindo dizer que qualquer coisa é alguma coisa. Está sofrendo, está esperando, está conseguindo dizer que alguma coisa é alguma coisa. Está esperando conseguir esperar que alguma coisa seja alguma coisa. Está esperando conseguir dizer que está conseguindo esperar que alguma coisa seja alguma coisa. Está esperando conseguir dizer que alguma coisa é alguma coisa.



gertrude stein
poesia da recusa
augusto de campos
perspectiva
são paulo, 2011






23 setembro 2019

guilherme gontijo flores / talvez como um salário da loucura




Talvez como um salário da loucura
ou das tamanhas solidões
que calharam de caber
nesta noite o sol
vem soluçando aos nossos copos
                        ouro no ouro
enquanto ainda restam
dedos braços alçados goela
perdura uma ânsia
por nada esta escuma



guilherme gontijo flores
carvão: :capim
artefacto
2017





22 setembro 2019

marcus daniel cabada / a ninguén



Que limite puidera atesourarche a lin-
guaxe? A que vasta persinaxe enlearias o
silencio da nostalxia? Que fronteira cara
o roce imporias como soño inalcanzable?
Que imaxe abaterias tras fenecer na ou-
sadia doutro espello? Que assumirias do
universo se unha ausência non varrese
todo o que no tempo xa te abarca?



marcus daniel cabada
un xardín de medio lado
17 poetas da urutau na galiza
antoloxia
urutau
2019






21 setembro 2019

hugo carvalheira neves / não me tires o ar da boca



não me tires o ar da boca senão para passá-lo ao próximo
e não quero saber do próximo
ar que tiro
pleural, pulmonar, carnívoro
que faz de mim só seguinte mas não ao pé
não à beira
da mancha, entre tantas, que carregas
mudável sob a pele.




hugo carvalheira neves
certa parentela
do lado esquerdo
2019








20 setembro 2019

màrius torres / a noite dos vagabundos




Não é que nós, na noite escura, sigamos
a luz vacilante e longínqua de um destino.
É que a noite cruel, para nos atingir, envia
a cada coração um sonho mais belo do que qualquer manhã.

Ela, que das luzinhas de um lugarejo mesquinho
nos faz um palácio de feitiço em cada lonjura
e nos engana, sabendo que somos fracos, assim
ao ter o nosso desejo como única companhia.

E fria, olha para nós. Como uma loba em repouso
alonga pelo espaço a curva do seu corpo
elástica, luminosa, cheia de realeza;

até que, com a altivez dos velhos monstros divinos,
salta do céu para o mundo, e nos faz reféns,
a nós, os pobres vagabundos dos caminhos…


                                                     Outubro de 1937




màrius torres
a cidade longínqua
antologia
trad. rita custódio e àlex tarradellas
ovni
2010






19 setembro 2019

manuel a. domingos / blues




São tristes pela manhã
os olhos dos trolhas
sobre o café e o primeiro
bagaço dobrados

O sotaque denuncia
outra vida que ficou longe:
o filho ainda a dormir
a mulher sozinha

Procuram conforto
no cigarro aceso pela chuva
que os deixa no chão
porque hoje ninguém

sobe aos andaimes
Resta apenas olhar
os prédios em frente
esperar pela carrinha

de nove lugares que
os levará de volta à terra
à província como aqui
na cidade se diz




manuel a. domingos
aprendiz
volta d´mar
2019








18 setembro 2019

joão rebocho / quando quase casaste







quando quase casaste
mandei-te quase
seis meios cavalos
a breve saudação,
eu era só a tua personagem
atravessada no livro
mãos nos bolsos e a profunda
abstração
da turma toda
adormecida,
quase em tua casa a mãe de Dario,
esse também é Alexandre
quando chamou-me Alexandre
quase, disse Alexandre



joão rebocho
o ano ímpar
edição do autor
2019







17 setembro 2019

nuno / blue monday



Chegarás enfim numa tarde
azul. Dir-me-ás que estou velho,
na minha funcionalidade sufocante
de quem viu apenas o caminho como ele pode ser.
Dir-me-ás para beber menos,
que outros, outros, os outros.

Muitos ficaram na sociopatia normal dos cafés
de onde me escrevias nos guardanapos
que sempre esquecias, embalavas, que nem
sempre existiram,
por entre todos os homens que beijaste.

Dir-me-ás ______________
E devolver-me-ás os livros, as respostas
e as palavras que deixei nos teus cabelos,
porque nunca sequer bastou escrever
o mais sublime poema de amor.

Sabíamos desde o início que nada ficaria, e
ainda assim:
                      - não se pode recusar nunca o sofrimento.




nuno
livro de visitas
díptico
ed. do autor
2019






16 setembro 2019

rafael mendes / o inefável momento







eu fujo
dos sinos e capelas
dos poemas de baudelaire
das begónias e cirandas
parques e arco-íris

escondo-me
em soleiras e cortinas
becos e travessas
nos subsolos e terraços
no breu da noite
na névoa do alvorecer

e,
ainda assim,
se faz presente
o inefável momento
em que lhe disse adeus

desde então,
quando durmo, não descanso
nas refeições, não me nutro
os vícios, não dão prazer
no banho, não me limpo
nos livros, não encontro respostas
desde o inefável momento



rafael mendes
ensaio sobre o belo e o caos
editora urutau
2019





15 setembro 2019

ângelo de lima / súplica



Para alguém, foi, do teu olhar a flama,
Como, após noite escura, a luz d´aurora.

Da «selva escura» entre a sombria trama,
Ouve, mulher, como esse alguém t´implora.

Oh, baixa sobre mim o olhar fulgente!...

Que o teu olhar é bálsamo que inora,
Do céu sobre esse seio, em que, latente,

Remorde, há muito, o cancro de um anseio,
De um desejo insensato e sede ardente

De um não sei quê, que em teu olhar eu leio.


ângelo de lima
poesias completas
assírio & alvim
2003






14 setembro 2019

y. k. centeno / o sótão




o sótão: inacessível
nunca mais verei os livros
nunca mais irei lá acima
(eu tenho medo das arcas
eu tenho medo dos ratos
que guardam o impossível)



y. k. centeno
perto da terra
editorial presença
1984










13 setembro 2019

sebastião alba / a esperança enlaçava a âncora




A ESPERANÇA ENLAÇAVA A ÂNCORA
por sobre o banco de Antero…
foi-se a idade da bala no céu da boca
(pois que outro céu havia?)
e a da morte acerca de cujos lances,
na guerra, os tabus são omissos:
como ir-se babando pelo chão
atrás dum olho seu.
Esperarei até que as unhas se encaracolem,
sem um corredor entre os cimos das árvores
nem outra evasão em que vogue,
que a Ursa Maior me fareje
da sua constelação, e se aproxime.



sebastião alba
a noite dividida
assírio & alvim
1996





12 setembro 2019

marta navarro / complexo de interioridade




Antes de terminar
antes de me remeter ao silêncio da ilha
que não sei ainda descrever
mas desejo que seja a casa
da mentalidade pós-lógica
uma última coisa:
o tempo que dá o ritmo
às ideias e às acções
é o da eterna repetição cíclica
Hofmannsthal procurava x
eu procuro x
e como se este voltar a procurar
este continuar a procurar
não se autojustificasse
cem anos de novas combinações
eu posso escrever a ouvir Korn
ele não.
Isto deveria bastar para me tranquilizar
mas não basta
Da insatisfação em adaptação
de adaptação em insatisfação
saio à noite para levar o complexo de interioridade à rua
e mesmo quando apanho o melhor banco do jardim vago
vejo apenas sombras
de ucronia
uma dupla dança
que a exegese diz que diz
a um só tempo
não tinha de ser assim
mas é assim
do que se conclui que
melhor não conseguiriam
mais não conseguiriam
e eu não sou mais que a voz
do teu complexo
citando para
manter viva a fragilidade
do «triunfo do avesso»
do versilibrista.




marta navarro
doqse concq
editora a tua mãe
2016