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21 abril 2016

rosa alice branco / os escombros da poesia



Passos apressados estendem as sombras
pelas veredas que as mulheres percorrem
desde a criação. O oriente oferece-lhes
o fósforo iluminado que desenha na terra
a semelhança de caminhos
mas é a ti que a pele do gamo cobre os ombros
e o sacro tirso pende das garras adormecidas.

Sei que chegaste pelo rufar dos tambores
que se confunde com o ondular das pernas
quando invocas a terra, incitas os cães
e o velho poeta abandona os escombros
para vir juntar-se ao vinho da poesia.

Cavafis escreve que deus abandona antonio
nesse mesmo café. Tentas reter a intimidade
que fizeste tua por instantes e se esvai
pela janela orvalhada onde vislumbras a cidade
que te oferece apenas o abismo das ruas
e algum ódio que escorre docemente pelo copo.
Pergunto-me se saberás escolher o chão que te há-de
sulcar os pés, a madeira seca para o sacrifício?
A cabeça do velho é a tocha que te dá alento
quando as portas do café se fecham uma a uma
e o medo inventa o festim da morte
que repetimos tantas vezes
em noites de incompreensível beleza.
A vocação da poesia enrola-se-te nas pernas
como um animal e já nada o distingue de ti,
nem o gamo, a sua pele sacrificada
nos teus ombros onde o ouro que diz o teu nome
é limalha de sombra em voo rasante sobre nada.


rosa alice branco
voo rasante
antologia de poesia contemporânea
mariposa azual
2015



22 março 2015

rosa alice branco / o aroma da língua



Subimos a rua sob a floresta de plátanos,
o apito do comboio lembra o aroma das árvores
que julgamos sentir
como a tua mão lembra as minhas pernas
e assim todas as coisas acariciadas se parecem
mas não sei onde se passa tudo isto
que se passa connosco.
O próprio sentido de plátano perde-se em mim
pois és tu que soletras a palavra «árvore»
enquanto a rua sobe nos teus passos.

Que faço com as palavras «aqui» e «aí»
por onde vais enquanto a rua caminha?
Por que espaço sem espaço
em que língua impossível
chegamos à palavra «nós»?
Por que magia nos cruzamos no tempo
arrastados por um «aqui» que não pára de dançar,
que não pára. Como?



rosa alice branco
poesia do mundo/2
edições afrontamento
1998