09 dezembro 2014

mário cesariny / homenagem a franz kafka




Talvez a criança semi-devorada recupere o uso da fala
e nos diga o silêncio dos guardas
e os seus capacetes de aço escuro
talvez as salas se desmoronem contigo
para revelarem o segredo dos juízes
— os cubos amarelos na amplidão dos tectos —
talvez tu, Franz, soldado no abismo,
pequeno e secreto deus das metamorfoses
um olho nu a descansar sobre Zina
friamente
e os teus dedos muito leves e brancos
atravessando-lhe em lentidão o rosto.


Após a noite
quando as aves já cantam na manhã
o teu corpo envolvido em vermes e rosas
debruça-se febril nas montanhas
revelando o guarda
redescobrindo a tempestade intensa e serena
os passos mais recônditos no interior da seiva
as árvores mais pétreas no fundo do deserto
a loucura mais lúcida no trânsito da cidade:
aqueles homens sentados nos passeios das ruas
dobrados sobre si mesmos
auscultando pequenos seres misteriosos
e a conservação do rito mais solene.


A tua liturgia é o hábito
de veres o mundo de costas morrendo
quando nas árvores
os corpos já pendem ressequidos
maduros como frutos de verão.
Pelo silêncio da madrugada
as tuas mãos acariciam-nos dolorosamente.
Um choro ergue-se nos campos ondulantes
e refazemos este homem comummente vestido
que ignora a lei e caminha imperturbável
para além dos seus passos e das suas palavras;
nas pedras funâmbulas que limitam a cidade
— guilhotina de múltiplas lâminas
de eficácia perfeitamente controlada —
e a revelam ao viajante hierárquica
levanta-se no silêncio do teu quarto.
Já tarde
quando erguido no leito
ansioso aguardas
o pássaro vem dançar sobre o teu rosto
balançando-se penosamente até te ferir,
revelando aquele fumo
que teus olhos se habituaram a perfurar
(teus olhos a máquina perfeita
e devoradora de tempo e mitos).
As tuas três mil colunas rodeiam-te
quando o incêndio principia.
Agora o teu rosto
está negro de temor, desfalecido
e as rosas rubras queimam-te
as mãos
na sua febre outonal e raivosa.
Começa outra vez o crepúsculo antigo e pressentido
a mortalha iniciada cedo
no descanso da montanha
na coluna do termómetro obrigatório e detestado
no silêncio da galeria povoada de mortes
com lágrimas
que não quiseste revelar
e o cinzento das coisas em putrefação
deslizando lentamente
e a noite, A NoITE
    
                     A MoRTE

A TUA MoRTE ACARICIADA PELAS TUAS

            MÃos.




mário cesariny
antologia do cadáver esquisito
assírio & alvim
1989




1 comentário:

Maria Luiza Silveira Teles disse...

Meu Deus, que poema lindo! Bem semelhante à beleza e ao horror da vida. Parabéns, poeta! Tu nos trazes
reflexões profunda aliadas à Beleza.
Abraço,
Maria Luiza