13 janeiro 2008

andre breton e paul éluard /a vida intra-uterina



Nada ser. De todas as maneiras que o girassol tem para amar a luz, o pesar é a mais bela sombra no quadrante solar. Ossos cruzados, palavras cruzadas, volumes e volumes de ignorância e de saber. Por onde é preciso começar? O peixe nasce de uma espinha, a macaca de um caroço. A sombra de Cristóvão Colombo ela própria gira sobre a Terra de Fogo, não é mais difícil do que o ovo.
Uma grande segurança — e grande sem termo de comparação — permite ao espectro negar a realidade das formas que o encadeiam. Mas ainda não nos encontramos lá. Os gestos proibidos das estátuas no molde deram estas figuras imperfeitas e espectrais: as Vénus cujas mãos ausentes afagam o cabelo dos poetas.
De uma margem para a outra, as lavadeiras lançam o nome de um personagem fantástico que percorre a terra simulando ódio por quanto beija. As suas canções são tudo o que me arrebata e que no entanto é arrebatado, como os pombos-correios fotógrafos obtêm sem o quererem panorâmicas do campo inimigo. Os seus olhos estão menos distantes de mim que o abutre da sua presa. Compreendi que o rosto da mulher só se desvenda durante o sono. Está em deslumbramento, entre as pastagens religiosas dos céus. Quer de dentro, quer de fora, é a pérola que mil vezes vale a morte do mergulhador. Por fora é a fronde admirável, por dentro é a ave. Os espinheiros dilaceram-no e as amoras mancham-no de negro, mas concede aos silvados a singular fonte do seu fervilhar de luz. Não é possível saber aquilo em que se tornou desde que o descobri.
A corça entre dois saltos gosta de me olhar. Faço-lhe companhia na clareira. Caio lentamente das alturas, não peso ainda senão o que dão a pesar de menos cem mil metros. O lustro apagado que me ilumina mostra os dentes quando afago seios que não escolhi. Grandes ramos mortos os trespassam. As válvulas que se abrem e se fecham num coração que não é o meu e que é o meu coração são tudo o que cantará de inútil numa medida a dois tempos: grito, ninguém me ouve, sonho.
Este deserto é falso. As sombras que escavo deixam aparecer as cores como outros tantos segredos inúteis.
Vou, diz-se, ver. Vou, vê-se, ouvir. O silêncio a perder de vista é o teclado que começa por estes vinte dedos que não existem. Minha mãe é um pião, de que teu pai é o cordel.
Tenho para seduzir o tempo adereços de calafrios, o regresso do meu corpo em si mesmo. Ah! tomar um banho, um banho dos Romanos, um banho de areia, um banho de areia de jumenta! Viver como é preciso saber ligar as veias num banho. Viajar no dorso de uma medusa, à flor da água e mergulhar depois nas profundidades para ter o apetite dos peixes cegos, dos peixes cegos que têm o apetite das aves que gritam para a vida! Já se ouviu cantar as aves pelas quatro horas da tarde em Abril? Estas aves são loucas. Sou eu. Já se viu o Sol cobrir a noite com o seu peso morto, como o fogo cobre a cinza? Tenho como sóis a passagem da chama ao fumo, a queixa enlouquecida de um animal acuado e a primeira gota de água de uma chuvada.
Atenção! Esperam-me. O dia e a noite vão estar na estação. Nunca os reconhecerei se me embaraçar com as malas da justiça.




andre breton e paul éluard
a imaculada concepção
tradução franco de sousa
estúdios cor
1972



5 comentários:

nuno disse...

levo este texto comigo, hoje, para dentro. obrigado.

isabel mendes ferreira disse...

curvo-me.

e tb o levo.


obrigada.



________cordialmente.

Ramon Alcântara disse...

Passeiam pela Humanidade e deixam-nos a pergunta incômoda: onde estava eu logo agora?

Clássico, clássico, Viva Breton!

abzz

lena disse...

levei-o comigo

deixo um abraço!

lena

mariah disse...

um texto belíssimo.
levo-o...

mariah