27 janeiro 2008

kopenhagen script







-1-

as árvores furiosamente nuas
largam os seus pássaros negros
num outro mês qualquer
e as estradas separam as folhas
rolam as pedras cansadas de sol
para que o sul seja um lugar
onde a água espera
e o destino se esconde
em forma de ilha

que mão amputar
se assim nos pedem o frio?




-2-

são tão largas as horas
que se consegue ver
a solidão dum comboio vermelho
a raspar a noite
como homens à procura de uma porta
definhando gloriosamente

nas suas estações de
desespero



-3-

pelas gárgulas das catedrais
escoam-se noites antigas
que homens pacientemente sábios
recolhem letra a letra

a neve, tão mansa,
guarda-lhes a sombra e os passos
que numa janela alta e distante
um outro homem há-de ler


-4-

às vezes os navios doem
como ópio num pulmão derrotado



ou como quando tu ficas
no impossível meridiano da ausência
e eu te aceno de um silêncio
que é quase a loucura dos pássaros











gil t. sousa
água-forte
2007







4 comentários:

Divinius disse...

Não iludo as palavras elas é que me iludem apenas lhes acrescento letras elas acrescentam-me vida.
Gostei de ler:)

João Luís Neca disse...

Adorei o blogue, como amante da poesia tenho que considerar uma falha ainda não ter visitado aa sua página.


www.paviagens.blogspot.com - Gostava que visitasse a minha página e se achar que merece adicioná-lo ao seu blogue

Ramon Alcântara disse...

esse espaço dessa cidade que não se constrói, alenta-se.


abzzz

musalia disse...

nunca a cidade interior se assemelhou tanto à invernia da espera...
nem se ouve um som...