19 julho 2007

bénédicte houart / vestem-se as dores













vestem-se as dores
nos bastidores da minha memória
esta é a puta
que estendeu a mão
após descruzar as pernas
esta é a ingénua
não estendeu a mão
após descruzar as pernas
esta é a nostálgica
traz a mão estendida
nunca descruzou as pernas
despem-se as dores nos
bastidores da minha memória


*


é uma casa de passagem onde
se vê o mar quando
a puta veste o fato de marinheiro e
põe a cassete da tempestade


*


mulher alguma é melhor do que
mulher nenhuma dizia o meu avô que morreu
esquecido num guarda-fatos
mulher alguma dispunha as bolas de naftalina e foi assim que
o meu avô foi primeiro lembrado pelas traças
tudo isto aconteceu há muito tempo mas
a alma não esqueceu
o nariz reconheceu

*

a puta que me pariu era a mais linda da rua formosa
eu saí a ela deve ser por isso que mal sorrio os homens perguntam
quanto é
e eu não é nada a puta que me pariu pôs-me a estudar e eu agora
só sorrio e é tudo de graça
e a seguir mostro-lhes o rabo e a seguir as pernas e ponho-me a andar
deixo-os de corpo a abarrotar
de tralha


*

um homem geme porque
o corpo da mulher que recusa
se enrosca e
a recusa é doce e um homem geme
enquanto a mulher se ausenta
estica o corpo até às nuvens
enfia os dedos no ânus das nuvens e
está frio na ponta dos seus dedos então
a mulher cose as nuvens umas às outras
monta um carrossel para se aquecer
e disse tomai os meus vestidos enfiai-os que não os quero mais
e empinou o corpo
finalmente a mulher remata o homem enrosca-se então


*

deus nos livre do mundo
soltou o moribundo
e livrou logo


*

mãe
obesa
esfrega o corpo nas coisas
derrama gordura
e as coisas brilham
Ó mãe mãe ó mãe
deixaste as coisas brilhando
para que as reconhecêssemos e agora
escorregamos nelas todas as vezes


*

hoje vou com aquele que me levar
e se for uma mulher
vou com as suas mãos que remendam
e não substituem
e se for um homem
vou com as suas mãos que remendam
e não substituem
e se ninguém houver
vou com ninguém que me leva sempre
para onde não quero
e vou com as suas mãos que substituem não remendam
é por isso que à noite
espreito para a janela dos comboios
e cumprimento-me timidamente


*


e é a sua mulher que o vai lavar quando os seus braços e as suas pernas o deixarem ficar mal vai encolhendo vai encolhendo o seu espaço já não estica os braços bocejar provoca-lhe uma dor aguda no peito as curvas do seu corpo desvaneceram-se os cantos crescem nos seus olhos para quê tantos suspiros era isto afinal e é ela que lhe vai levar a colher à boca e há-de recordar o aviãozinho que a sua mãe fazia sair da cartola os coelhos de peluche que apertava contra o peito e as coelhinhas que virilmente caçou ou as centopeias ou as centopeias tantas pernas esmagadas debaixo da sua barriga que incha incha cresce cresce a sua papada tu é que mandas é como quiseres enquanto as enrabava tic tic tic minha coelhinha o teu rabo é tão doce como o algodão cor-de-rosa que colava aos dentes quando eles ainda não tinham mastigado todas as pedras do caminho e agora gagueje meu caro senhor gaguejemos em coro já está e depois tinha sido tão rápido que chorava por mais e há-de desejar tudo recomeçar o sangue nas veias fervia e era tão quente que todo o ar evaporava em seu redor e as janelas embaciadas mais tarde recorda-se não havia mais ninguém e o escuro ainda lhe metia medo e havia cada vez mais coisas que lhe metiam medo e todas essas coisas eram escuras mãe mãe mas mesmo a mãe tinha escurecido debatia-se agora com fantasmas de terra os mesmos fantasmas que em vida para quando para quando o sossego mas agora eram outras as vozes que gritavam e essas vozes eram impacientes como dantes a sua e a sua a sua balbuciava agora doces imprecações e nem as ouvia e os seus ouvidos babavam-se decentemente ó velho tens uma meia de cada cor ó velho perdeste os suspensórios ó velho tens terra até ao pescoço e o teu pescoço já era uma maçã que até de apodrecer se esqueceu

*

acho que as crianças devem ser mantidas na ignorância
de certas coisas da vida
pois não sabendo nada sabem nada e é
muito embora muito pouco pareça muitas coisas aparecem
nós já não sabemos como nada pesa tanto que
só um pequenino pode ser derrubado
e do chão vir-se com as estrelas é quando chovem
as gotas escorrem-lhe dos dedos e são as lágrimas benditas
seja maldita a nossa incompleta desolação


*

creio em terra toda poderosa
jazo desde já alegremente aqui


*

estou a apodrecer
diz o rapaz e
cheira a noz moscada e
cheira a noz moscada
debaixo dos meus braços
há muitos odores para o apodrecimento


*


calma rapaz
se tens a vida toda
se tens a vida toda
que te enterra
se tens a morte toda para trocar


*

no dia de todos os mortos quero um homem
bem vivo na minha cama
pois os mortos são muitos e
dos vivos basta um
se não chegar
dá deus outro
parecido com os demais onde é preciso
cada vivo desalinhar













bénédicte houartinimigo rumor
número 15
2º semestre 2003


1 comentário:

André L. Soares disse...

Bom dia! Belo poema. Aliás, não apenas esse. O blog todo é de muito bom gosto e os textos são todos ótimos. Excelentes mesmo! Depois voltarei para ler mais. Estou sempre dando um ‘passeio geral’ pelos blogs relacionados à arte, principalmente poesia e prosa. Gostei muito do seu blog. Vou adicioná-lo ao meu blog, bem como favoritá-lo no ‘blogblogs’, para que possa visitá-lo mais vezes. Quando puder, visite também meu blog, no endereço: [ http://poemasdeandreluis.blogspot.com ]. Sinta-se à vontade... a casa é sua,... e, gostando,... por favor, também adicione meu blog e, se for o caso, ao seu ‘blogblogs’, ‘techinorati’ etc. Vamos tentar ampliar a rede de intercâmbio artístico-cultural, influenciando-nos e aprendendo mutuamente. Grande abraço!