12 maio 2026

louise glück / a íris selvagem

  
 
No fim do meu sofrimento
havia uma porta.
 
Ouve-me bem: recordo aquilo
a que tu chamas morte.
 
Por sobre mim, barulhos, ramos ondulantes de pinheiro.
Depois, nada. o sol fraco
a cintilar na superfície seca.
 
É muito duro sobreviver assim,
a consciência
sepultada na terra escura.
 
Depois, o fim: aquilo que se teme, ser
alma e incapaz
de falar, termina bruscamente, a terra hirta
curvando-se um pouco. E o que eu achei serem
pássaros lançando-se em voo pelos ramos baixos.
 
A vós que não recordais
a passagem do outro mundo
digo-vos que eu poderia novamente falar: o que
regressa do olvido regressa
para encontrar uma voz:
 
do centro da minha brotou
uma fonte fresca, sombras
em azul profundo sobre o azul da água do mar.
 
 
 
louise glück
a íris selvagem
tradução de ana luísa amaral
relógio d´água
2020




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