26 janeiro 2026

daniel jonas / lenha

  
 
A geada que crepita da janela,
o lenho, tempo
sobre o tampo:
a chaleira imperturbável e fria.
 
Se te separares da mãe que te envolve
vestirás o manto de neve
e deixarás a casa com o teu machado
tão afiado como um tordo
 
rumo a um sacrifício hebreu.
Expiarás in extremis no lenho
o musculoso braço da degola,
já longe o fumo do holocausto
no casebre, fumo sobre o charco.
 
Apenas os teus dentes, blocos de gelo,
loucos percutem,
ameias sobre ameias,
muralha fruste contra o frio.
 
Infliges a lenha.
O silêncio atordoa.
Toda a minúcia do que vês:
ligustro, roseira brava, alfazema,
não achou ainda caminho
para o poema.
 
Apenas, vinte centímetros de cinzento,
o migrante gregário,
o boémio sedoso
com as bagas dos seus olhos
rolando para os mirtilos de Minsk
 
se aproxima
no aprumo oleoso.
 
Os ouvidos zunem.
 
A cada assobio do teu gume
um tordo cai
silenciado:
à volta do patíbulo truncado
um massacre de pássaros.
 
O teu machado mais afiado
do que este vento
ou este gelo
a inteira a natureza.
 
 
 
daniel jonas
bisonte
assírio & alvim
2016





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