17 novembro 2015

alda merini / acordar com a febre altíssima



Acordar com a febre altíssima
num delírio de amor,
e ouvir ao longe
as pessoas falarem de ti como poeta
de precisa e indómita escrita,
mas que te importa enfim
a meta está alcançada
podes amaina as velas
e finalmente apaziguar-te,
e dizer que o teu comprimento
é um metro e cinquenta de estatura
e o teu peso é 80.

Está tudo, do resto
não vai ficar mais nada, as folhas
dirão que escreveste, sofreste, amaste,
que desesperadamente pediste ajuda
e a ajuda não veio.
Então mede a quadratura do círculo
ocupa-te finalmente da tua esquizofrenia,
é o bem que te ficou
é a verdadeira fecunda poesia
depois ficará um caixão
um e cinquenta de comprimento
para acolher-te, um nada dentro da espécie,
e oxalá fique a tua memória
no coração de Giacinto Spagnoletti.

(de A terra santa e outros poemas, Lacaita 1984)



alda merini
tradução de marco bruno
relâmpago
revista de poesia, nr. 17 10/2005
fundação luís miguel nava
outubro de 2005



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