03 novembro 2015

isidore ducasse conde de lautréamont / cantos de maldoror



Andava em busca de uma alma semelhante à minha. E não podia encontrá-la. Procurava por todos os recantos da terra: era inútil a minha perseverança. E, no entanto, não podia continuar só. Precisava de alguém que aprovasse o meu carácter; precisava de alguém que tivesse as mesmas ideias que eu. Era de manhã; o sol ergueu-se no horizonte em toda a sua magnificência, e eis que diante dos meus olhos se ergue também um jovem cuja presença gerava flores quando passava. Aproximou-se de mim estendendo-me a mão: “Vim a ti, a ti que me procuras. Bendigamos este dia feliz.” Mas eu respondi-lhe: “ Vai-te; eu não te chamei; não preciso da tua amizade…” Era de tarde; a noite começava a estender o negrume do seu véu sobre a natureza. Uma bela mulher, que eu mal distinguia, estendia igualmente em meu redor a sua influência encantatória, e olhava-me compassiva; porém, não ousava falar-me. Eu disse: “Aproxima-te de mim, para que distinga com nitidez os traços do teu rosto, porque a luz das estrelas não basta para os iluminar a esta distância.” Então, com passos modestos e de olhos baixos, ela pisou a relva do chão dirigindo-se para o meu lado. Disse-lhe logo que a vi “Vejo que a bondade e a justiça fizeram morada no teu coração: não poderíamos viver juntos. Agora admiras a minha beleza, que já transtornou a muitas; mas, mais tarde ou mais cedo, havias de arrepender-te de me teres consagrado o teu amor; porque não conheces a minha alma. Não que te seja alguma vez infiel: àquela que a mim se entrega com tanto abandono e confiança, com tanta confiança e abandono, a ela me entrego; mas convence-te disto, e nunca mais o esqueças: os lobos e os cordeiros não se olham com doces olhos.”

(canto II, excerto)



isidore ducasse
conde de lautréamont
cantos de maldoror
trad. pedro tamen
fenda
1988




1 comentário:

Pedra do Sertão disse...

Tão difícil é tornar esse o "encontro"!

Abraços do Pedra do Sertão

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