08 fevereiro 2011

nizzar qabbani / o poema




o poema
uma lição de desenho



O meu filho coloca a sua caixa de pintura à minha frente
E pede-me que lhe desenhe um pássaro.
Mergulho o pincel na cor cinzenta
E traço um quadrado com fechaduras e grades.
Os seus olhos enchem-se de surpresa:

"... Mas isto é uma prisão, pai,
Não sabes desenhar um pássaro?

E eu digo-lhe: "Filho, perdoa-me.
Esqueci-me da forma dos pássaros.

O meu filho coloca o livro de desenhos à minha frente
E pede-me que desenhe uma espiga de trigo.

Pego num lápis
E desenho uma arma.

O meu filho desdenha da minha ignorância,
perguntando,
"Pai, não sabes a diferença entre uma espiga de trigo e uma arma?"
Eu digo-lhe: "Filho,
uma vez usei a forma da espiga de trigo
a forma do pão
a forma da rosa
Mas nestes tempos duros
as árvores da floresta juntaram-se
aos homens da milícia
e a rosa veste uniformes escuros

Neste tempo de espigas de trigo armadas
de pássaros armados
de cultura armada
e de religião armada
não se pode comprar pão
sem encontrar uma arma no interior
não se pode colher uma rosa do campo
sem que os seus espinhos nos arranhem o rosto
não se pode comprar um livro
que não vá explodir entre os nossos dedos."

O meu filho senta-se à beira da minha cama
e pede-me que recite um poema
Uma lágrima cai dos meus olhos para a almofada.
O meu filho apanha-a, surpreendido, dizendo:

"Mas esta é uma lágrima, pai, não é um poema!"

E eu digo-lhe:

"Quando cresceres, meu filho,
e aprenderes o 'diwan' da poesia árabe
descobrirás que palavra e lágrima são gémeas
e que o poema árabe
não é mais do que uma lágrima chorada por dedos que escrevem."

O meu filho pega nos seus pincéis,
a caixa de pinturas à minha frente
e pede-me que lhe desenhe uma pátria.

O pincel treme nas minhas mãos
e eu afundo-me, chorando.







Nizzar Qabbani

Escritor sírio, considerado um dos maiores poetas árabes. Do amor e da política.
Morreu em Londres onde vivia, aos 75 anos, em Maio de 1998.
Notabilizou-se com obras eróticas que quebraram tradições literárias no Médio Oriente,
pela defesa da emancipação das mulheres.
As suas palavras ficaram imortalizadas nas canções da egípcia Umm Kulthoum
e da libanesa Fairouz. Nacionalista convicto,
foi extremamente crítico dos líderes árabes, sobretudo após as guerras
contra Israel de 1948 e 1967, que contribuíram para o êxodo palestiniano.

(in Público, 8 de Abril de 2002)


3 comentários:

Eduarda disse...

Fiquei queda e muda.

As imagens chegaram, ora suaves, ora em forma de balas.

Só tenho que dizer...obrigada.

bj

R.B.Côvo disse...

Gostei muito do poema. Confesso que não conhecia Nizzar Qabbani. Um abraço.

OutrosEncantos disse...

que poema!...
que lição!...
também não conhecia.
obrigada, adorei.