31 janeiro 2007

LXXIX. na noite obscura





alguém roubou uma tecla ao piano, sentiu, de súbito, o seu coração dividido, uma nota que um ladrão roubara dessa carreira ________ ouviu-se um som plangente.
Se não levou toda a carteira, evaporou-se aquela parte da melodia nas mãos de alguém. E o piano perdeu o seu fragmento de potência. Não ergue mais todo o falo, foi o que sentiu o desvario da mulher _________ e desejou que a tromba do elefante se levantasse, e fosse procurar o cavalo derrubado no mar, onde vivia, à tona, um bando de noctívagos que consumiam ansiedade e pobreza. A nota estava com eles. Para que fossem destruídos pela fome ancestral/angélica que traziam no ouvido.


Uma tecla musical desaparecida corresponde a urna pessoa sem vista para quem vê. Essa moeda de olhar cego,
onde brilharia? Onde estava o cego?
À distância a que se encontra a mulher de outrora da mulher da noite obscura. Na esquina de uma rua, a vender doces de solidão.
— Quem quer doces da noite obscura? — apregoava. — Aí estava o cego, à margem das páginas que, à sua volta, se suicidavam.
Apregoava: «Doces da noite obscura. Doces de solidão».

E muitos jantavam unicamente esses doces, sem nenhum gosto, a não ser o da noite que os guiava ________ a alguns, muito poucos.





maria gabriela llansol
amigo e amiga
curso de silêncio de 2004
assírio & alvim
2006



1 comentário:

magnohlia disse...

Que belíssimo texto!