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23 janeiro 2019

pedro spigolon / fotografia de uma morte




Um vento salgado roubou
a cor de teus cabelos,
na nuca inventou o inverno
dum parto, partiste
como um navio
sem festim de aceno.
Perseguiste uma ilha qualquer
navegando em meu sangue.
A película imitou teu
instante de inferno.
Tive os olhos incendiados
como quem chora gasolina.


pedro spigolon
espanto
editora medita
2015






01 agosto 2016

pedro spigolon / meteorologia dos corpos





Nenhum dilúvio limpará esse ódio
haverá sempre uma vingança justa
sempre uma revolta necessária.
Qualquer apelo é inútil
rezar nem se fala.
Não há onde esconder esse desespero.
As crianças não cabem nos bolsos
e ainda precisam empilhar corpos
como os brinquedos de uma guerra.
Um olho nunca será uma bolinha de gude,
uma amarelinha não se pula sobre cadáveres.
O único céu é o da boca
quieta como um dia nublado
em que a chuva encontra o silêncio
que abandonou a carne.
Sangue não é urucum
para pintar o rosto da cidade
com pavor e medo.
Nem tente recostar seu rosto
nessas bochechas que desmancham,
qualquer carinho é um crime
toda empatia uma cumplicidade.
Do telhado do país
a vertigem das gotas,
em vão esfrega essas mãos:
água não lava o horror.
No Jornal Nacional tudo será
paz e progresso
e a previsão do tempo
indicará estiagem
seca das lágrimas
racionamento da saudade.
A vida escorre confundindo
Choro com chorume…
Daqui algum tempo,
quando o sol evaporar o medo
o ódio grudará nas nuvens
escurecendo  céu
e novamente seremos
mortos
órfãos
ou cúmplices.


pedro spigolon
espanto
editora medita
2015



15 novembro 2013

pedro spigolon barbosa / a muralha



               “Construímos muralhas por todos os lados
               para que o olhar não sofresse de imensidão”
               – Tiago Fabris Rendelli


Ergueram uma muralha no horizonte
de nosso coração enraizado.
Por todos os lados
as pedras tapam
a imensidão furtada
de tuas raízes soníferas.
Onde estará a vastidão do mundo
já que tu és tão pequeno?
Tu és tu mesmo quando repousas
o peso da miséria na piedade de terceiros?
Tu és tu mesmo quando
persegues o crepúsculo de tua hora
numa ânsia nem do dia nem da noite?
Quando rodeias em dança
a cabeça do Batista
festejando o esquartejamento
dos santos no século?
Quando te vingas dos pássaros
que escrevem no céu
teu nome conjugado
com a morte?
Quando vais ao mercado
ofertar teu sexo de máquina por
                     Bananas nanicas?
Quando beijas alguém não por paixão
mas para povoar, num desespero,
teu atiçado desejo miserável?
Tu és tu mesmo quando o sono
quebra teu dente
e numa fome de sonâmbulo
te empanturras das fatias lazarentas
de teu espirito moderno?
Tu és tu mesmo
quando te omites de ti?
Quando te afugentas da febre
que amanhece tua alma trancafiada?

[Fresta]

(Que paixões cantam os pássaros
para além desses muros?
De que brincam as crianças
que correm por essa vastidão?
Quais as novas cores
desse céu de aquarela?
Que desenhos rabiscam
as nuvens de lá?)
Ide! Eu sou a Dinamite
A dilacerar teus estreitos limites
A predar a pedra
que edifica tua ninharia
A lançar veredas
que te lavem os olhos.
Se Crer, há de despertar
e levantar quando ouvir:

“— Lázaro, vem para fora”.




pedro spigolon barbosa
euOnça
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editora medita
2013