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29 novembro 2017

angél gonzález / dia de anos




Noto isto: estou a ficar
menos certo, confuso,
dissolvendo-me no ar
quotidiano, tosco
girão de mim, desfiado
e roto pelos punhos.

Compreendo: vivi
um ano mais, e isso é bem duro.
Mover o coração todos os dias
quase cem vezes por minuto!

Para viver um ano é necessário
muitas vezes morrer muito.



angél gonzález
antologia da poesia espanhola contemporânea
selecção e tradução de josé bento
assírio & alvim
1985






02 maio 2017

angél gonzález / como se nunca




     É algo mais que o dia o que morre esta tarde?
O vento,
                          – que leva ele?
que aromas arrebata?
Desatadas de súbito as folhas das árvores
cegas vão pelo céu.
Pássaros altos atravessam, adiantam-se
a luz que os guia.
                               Sombria claridade
será já em outro sítio
 – só por um instante –
madrugada.

     Com bandeiras de fumo alguém me avisa:

      – Olha bem tudo isto:
isto que passa
não voltará jamais
e é como se nunca tivesse sido

     efémera matéria de tua vida.



angél gonzález
rosa do mundo
2001 poemas para o futuro
trad. josé bento
assírio & alvim
2001




18 janeiro 2017

angél gonzález / epílogo



Arrependo-me de tanta queixa inútil,
                                                              de tanta
lamentação impertinente.
São as regras do jogo inapeláveis
e justificam toda, qualquer perda.
Agora
só o inesperado ou o impossível
poderia fazer com que eu chorasse

uma ressurreição, nenhuma morte.



angél gonzález
antologia da poesia espanhola contemporânea
selecção e tradução de josé bento
assírio & alvim
1985





21 junho 2016

angél gonzález / todos vocês parecem felizes…



… e sorriem, às vezes, quando falam.
E até dizem uns aos outros
palavras de amor. Mas
amam-se
de dois em dois
para
odiar de mil
em mil. E guardam
toneladas de asco
por cada
milímetro de felicidade.
E parecem – nada
mais que parecem – felizes,
e falam
com o fim de ocultar essa amargura
inevitável, e quantas
vezes não o conseguem, como
não posso ocultá-la
por mais tempo: esta
desesperante, estéril, longa,
cega desolação por qualquer coisa
que – não sei para onde – lentamente, me arrasta.


angél gonzález
antologia da poesia espanhola contemporânea
selecção e tradução de josé bento
assírio & alvim
1985