25 abril 2010

antónio josé forte / desobediência civil











se a preguiça encantadora dos homens
deve acabar a sua obra e a sua língua de fogo
unir os dias e as noites do desejo
então saudemos as grandes afirmações:
«a poesia deve ser feita por todos» e
«a poesia é feita contra todos»

os devoradores de cultura podem sair pela esquerda alta
fiquem os amantes obscuros e o único os raros
todos os nus
porque a língua portuguesa não é a minha pátria
a minha pátria não se escreve com as letras da palavra pátria


Vêde
sobre a coroa de silêncio do vulcão adormecido
uma ave a sua plumagem de cores trémulas
e as asas que escrevem letra a letra o nome definitivo do homem
e no entanto multidões de gnomos
cada qual com o seu estandarte
esperam à entrada dos cemitérios
para saudar o fogo-fátuo


eu passo de bicicleta à velocidade do amor
atravesso a terra de ninguém com um dia de chuva na cabeça
para oferecer aos revoltados












antónio josé forte
uma faca nos dentes
parceria a. m . pereira
2003










3 comentários:

Delirius disse...

Fabuloso poema, fabulosa mensagem!
Adorei! Não conhecia, GS!
Obrigada

Rute Oliveira disse...

: )

poematar disse...

Poema oportuno, bem a propósito do empo que passa. Tudo de bom.