26 novembro 2009

konstandinos kavafis / páginas íntimas





Nunca vivi no campo. Como outros, nem sequer a planície visitei, a não ser por curtos períodos de tempo. Não obstante escrevi um poema sobre o campo e dei-lhe aquilo que os meus versos lhe devem. Esse poema pouco vale. Nada existe menos sincero do que ele; uma total mentira.

Agora ocorre-me, porém, o seguinte: tratar-se-á, realmente, de uma falta de sinceridade? Não estará a arte sempre a mentir? Melhor dizendo, não será ela tanto mais criativa quanto mais mente? Quando escrevi aqueles versos, não estariam a ser produto da arte? (Não serem perfeitos talvez se não deva a uma falta de sinceridade, pois muitas vezes falhamos tendo por matéria-prima a mais sincera das impressões.) Na altura em que fiz aqueles versos haveria em mim sinceridade artística? Não estaria eu a pensar de uma forma que era como se vivesse, de facto, no campo?







konstandinos kavafis
kavafis páginas íntimas
trad. joão carlos chainho
hiena editora
1994



3 comentários:

Efigênia Coutinho disse...

Um espaço com profundo conhecimento cultural, raro aqui..

Meus cumprimentos, adorei conhecer e ler o que é realmente bom,
Efigênia Coutinho

J.Garés Crespo disse...

"Se você vai fazer a viagem a Ítaca,
solicitou que a estrada é longa,
rico em experiência, concimiento ".
K. Kavafis

Luís Costa disse...

Com uma obra autorizada de apenas 154 poemas, só editado em livro postumamente, Kaváfis demonstra-nos que não é preciso escrever-se muito para ser um dos maiores vultos da poesia universal. Linguagem lacónica e clara. Temas homoeróticos, histórico-filosóficos.
Para além da poesia escreveu também alguns ensaios e contos e deixou-nos ainda algumas notas de diário, como esta aqui, onde nos é permitido conhecer um pouco o íntimo deste maravilhoso poeta de Alexandria. Como ele mesmo, numa passagem de uma nota quase profética com o título “ Kaváfis sobre Kaváfis, dizia:
“ Kavafis é na minha opinião um poeta ultramoderno, um poeta das gerações vindouras “
E assim foi.