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31 agosto 2021

raymond carver / pelo menos

 
 
Quero levantar-me cedo uma manhã mais,
antes do nascer do sol. Antes mesmo dos pássaros.
Quero atirar água fria à minha cara
e estar à minha mesa de trabalho
quando o céu clarear e o fumo
começar a sair das chaminés
das outras casas.
Quero ver as ondas a quebrarem-se
nesta praia rochosa, não ouvi-las apenas
a bater, como fiz toda a noite durante o meu sono.
Quero ver de novo os navios
que passam pelo estreito vindos de todos
os países marítimos do mundo –
os cargueiros velhos e sujos movendo-se vagarosamente
e os novos e rápidos navios de carga
pintados, sob o sol, de todas as cores
que cortam a água à medida que avançam.
Quero manter-me de olhos bem abertos por eles.
E pelos pequenos barcos que manobram
na água entre os navios
e o porto, junto ao farol.
Quero vê-los a receberem um homem que sai do navio
e a pôr outro lá em cima, a bordo.
Quero passar o dia a ver isto acontecer
e tirar as minhas próprias conclusões.
Detesto parecer ganancioso – e já tenho tanto
pelo qual devo ficar agradecido.
Mas quero levantar-me cedo mais uma manhã, pelo menos.
E ir para o meu lugar com algum café, e esperar.
Esperar, apenas, para ver o que irá acontecer.
 
 
 
raymond carver
o universo está pintado à mão
uma antologia fanática
por luís filipe parrado
língua morta
2020






11 julho 2012

raymond carver / felicidade




     De manhã muito cedo está ainda escuro lá fora
     Estou à janela a beber café
     E com aquele ar matinal
     Que passa por pensativo

     Um rapaz e um amigo
     Caminham pela rua fora
     Para entregarem os jornais da manhã

     Usam bonés e camisolas
     E um deles traz uma mochila aos ombros
     Parecem tão felizes
     Embora não digam nada

     Penso que se pudessem teriam dado
     As mãos
     É de manhã cedo
     E caminham juntos

     Vêm aí lentamente
     O céu está a clarear
     Embora uma lua pálida esteja ainda suspensa sobre a água

     Que beleza. Por um minuto
     A morte e ambição, até o amor
     Estão arredados disto

     Felicidade. Ela chega
     Inesperadamente. E passa em frente
     Qualquer dia de manhã muito cedo fala acerca disso




    raymond carver
     (1938-1988)
     tradução de jorge de sousa braga