não me deprimo:
é toda a vontade de escrever
que me resta
e às vezes
se tenho sorte
o achado de uma
imagem feliz
ou de um dito
inteligente
«enviado de algum senhor…»
desmonto do cavalo suado
e matam-me
sem razão aparente
brinquei demasiado com a vida
a infância acabou
e eu continuei a crer nas
fadas nas faldas dos bosques
e misteriosas princesas
que me esperam
em castelos silenciosos
«o mar ali era de um
azul ferrete e enchia-se
de carneiros sobrados
a alguma écloga»
no fundo não há ninguém
são inúteis as janelas
e os postigos
faz-se café para os ratos
mas o mais absurdo
são os espelhos
visto o sobretudo
de mágoa, ponho a solidão
como um chapéu
e hóspede de mim
como uma ténia
saio para
as praias da desolação.
ossos de sépia
noemas
língua morta
2022
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