09 janeiro 2026

primo levi / via cigna

  
 
Nesta cidade não há rua mais batida.
Está nevoeiro e é de noite: as sombras nos passeios
Que o clarão dos farolins atravessa
Como se a fosse diluir no nada, em grumos
De nada, são as dos nossos semelhantes.
Talvez já não exista o sol.
Talvez seja escuro para sempre: no entanto
Noutras noites sorriam as Plêiades.
Talvez seja esta a eternidade que nos aguarda:
Não o colo do pai, mas embraiagem,
Travão, embraiagem, engatar a primeira.
Talvez a eternidade sejam os semáforos.
Talvez fosse melhor consumir a vida
Numa única noite, como o fogo.
 
2 de Fevereiro, 1973
 
 
 
primo levi
a uma hora incerta
trad. rui miguel ribeiro
edições do saguão
2024
 




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