19 abril 2026

marin sorescu / se a água não ficar negra




 

 

Se a água não ficar negra,
O prazer de nos lavarmos
É igual a nada,
Disse Pilatos, ensaboando-se bem.
 
Ao mesmo tempo Jesus é escarnecido,
Crucificado,
Forçado a contorcer-se na cruz
Como numa cama de insónias.
 
Forçado a beber veneno,
Forçado a morrer,
Forçado a ressuscitar ao terceiro dia,
Forçado a subir aos céus.
 
Ao mesmo tempo a cruz é lançada ao fogo,
As cruzadas são escavacadas;
Pelas fissuras entre as raças
Sai um fumo sufocante,
Esvoaça a pólvora do canhão,
Escória de radiações que anunciam
A alvorada do novo mundo.
 
Por fim
A água escorre cada vez mais suja,
A história segue o seu curso,
E com um prazer cada vez maior
Pôncio Pilatos continua a lavar
As mãos.
 
 
 
marin sorescu
simetria
tradução colectiva revista, completada e apresentada
por egito gonçalves
poetas em mateus
quetzal
1997
 


 

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