16 julho 2017

bernardo soares / encolher de ombros



Damos commumente às nossas ideias do desconhecido a cor das nossas noções do conhecido: se chamamos à morte um sono é porque parece um sono por fora; se chamamos à morte uma nova vida é porque parece uma coisa diferente da vida. Com pequenos mal-entendidos com a realidade construímos as crenças e as esperanças, e vivemos das côdeas a que chamamos bolos, como as crianças pobres que brincam a ser felizes.

Mas assim é toda a vida; assim, pelo menos, é aquele sistema de vida particular a que no geral se chama civilização. A civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que não lhe compete, e depois sonhar sobre o resultado. E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade. O objecto torna-se realmente outro, porque o tornámos outro. Manufacturamos realidades. A matéria-prima continua sendo a mesma, mas a forma, que a arte lhe deu, afasta-a efectivamente de continuar sendo a mesma. Uma mesa de pinho é pinho mas também é mesa. Sentamo-nos à mesa e não ao pinho. Um amor é um instinto sexual, porém, não amamos com o instinto sexual, mas com a pressuposição de outro sentimento. E essa pressuposição é, com efeito, já outro sentimento.

Não sei que efeito subtil de luz, ou ruído vago, ou memória de perfume ou música, ou tangida por não sei que influência externa, me trouxe de repente, em pleno ir pela rua, estas divagações que registo sem pressa, ao sentar-me no café, distraidamente. Não sei onde ia conduzir os pensamentos, ou onde preferiria conduzi-los. O dia é de um leve nevoeiro húmido e quente, triste sem ameaças, monótono sem razão. Dói-me qualquer sentimento que desconheço; falta-me qualquer argumento não sei sobre quê; não tenho vontade nos nervos. Estou triste abaixo da consciência. E escrevo estas linhas, realmente mal-notadas, não para dizer isto, nem para dizer qualquer coisa, mas para dar um trabalho à minha desatenção. Vou enchendo lentamente, a traços moles de lápis rombo — que não tenho sentimentalidade para aparar —, o papel branco de embrulho de sanduíches, que me forneceram no café, porque eu não precisava de melhor e qualquer servia, desde que fosse branco. E dou-me por satisfeito. Reclino-me. A tarde cai monótona e sem chuva, num tom de luz desalentado e incerto... E deixo de escrever porque deixo de escrever.

s.d.


fernando pessoa
livro do desassossego por bernardo soares. vol.I
ática
1982







15 julho 2017

herberto helder / fonte



V
Apenas te digo o ouro de uma palavra no meio da névoa,
formusura inclinada sobre a descerrada cinza
e o frio dos retratos.
E espero que a seiva ascenda a um puro gosto
de reaver tua grave cabeça de mãe
com platina entre a aragem, seiva que inspire
o vermelho de uma face entre vivos
que adormecem no vinho e acordam
para o pomposo início dos destinos. Rogo
apenas que meus dedos não esqueçam o pão e a tristeza,
e a boca vibre como um pensamento
na substância de um seu instante –
carnal, irremovível.

E se morrer é a alta vocação das manhãs marcadas
pelas uvas – peço-te, mãe um dia
composta sobre a veemente confusão
das forças e dos números, que resguardes
entre as descuidadas dobras de pedra
o fulgor subtil de onde plátanos e aves recebiam
uma vida de quase dolorosa
beleza.

Partem-se, rente à primavera que nos cobria
de previsão e de silêncio,
os sentidos que havia sobre o teu rosto manchado.
E então é para ti, pequena e imensa coisa
engastada no alto das águas, no fundo de
desmemoriadas sementes – para ti só,
mãe engolfada no próprio leite renascente, que
se elevam uns lábios como feridos, tocados
pelo sumo incompleto, pelo podre sono da próxima
incontida primavera.

O que se diga está sagrado na frescura de um novo
coração. Por isso o ouro, como o inseguro passo
de um dia que traz a morte em sua intensa
juventude, roça a forma do espírito
em que tu mesma te buscavas – rápida e quente
em nós, no equilibrado idioma
de fomes e sorrisos que nunca
se decifram.

Num lugar onde a sombra é gémea
de um fogo irrevelado, jamais
se fazem mortes que se não destinem a um escarlate
de rosa. Jamais se adormece,
que não seja para ler um estuante anúncio
nas pálpebras que se apagam.

Por isso, como um instinto, nasces
da tristeza e te arrebatas, nasces como os bichos
da matéria dos seus dias, ou os frutos
que vacilam no bojo das auroras,
e em seu signo se embebem – até que o tempo os faz
violentos,
                   sagrados,
                                    impalpáveis.



herberto helder
poesia toda
a colher na boca
assírio & alvim
1996




14 julho 2017

pedro tamen / e agora: a tua pele




E agora: a tua pele.
Revejo: é manso o mar.
E sei que o vento corre e que por ele
se colam no teu corpo lembranças de luar.

Descanso: os teus cabelos.
Entrego: já é dia.
Os caules são serenos, e ao vê-los
no côncavo da mão o sol nascia.


pedro tamen
princípio de sol
circulo de leitores
1982




13 julho 2017

césar vallejo / altura e cabelos




     Quem não tem o seu vestido azul?
Quem não toma o pequeno almoço e não apanha o eléctrico,
com seu cigarro contratado e sua dor de bolso?
Eu que apenas nasci!
Eu que apenas nasci!

     Quem não escreve uma carta?
Quem não fala de um assunto importantíssimo,
morrendo de costume e chorando de ouvido?
Eu que somente nasci!
Eu que somente nasci!

     Quem não se chama Carlos ou qualquer outra coisa?
Quem ao gato não chama gato gato?
Ai,que apenas eu nasci somente!
Ai, que apenas eu nasci somente!




césar vallejo
antologia poética
poemas póstumos I
trad. josé bento
relógio d´água
1992 




12 julho 2017

julio cortázar / instruções para cantar




Comece por partir os espelhos de casa, deixe cair os braços, olhe vagamente para a parede, esqueça-se.

Cante uma nota só e escute. Se ouvir (o que só acontecerá muito depois) algo como uma paisagem sumida no medo, com fogueiras entre as pedras, com silhuetas seminuas e de cócoras, creio que está no bom caminho, assim como se ouvir um rio onde vogam barcos pintados de amarelo e negro, se ouvir um sabor a pão, um mexer de dedos, uma sombra de cavalo.

Em seguida compre solfejos e um fraque e por favor, não cante pelo nariz, deixe Schumann em paz.



júlio cortázar
histórias de cronópios e de famas
manual de instruções
tradução de alfacinha da silva
editorial estampa
1973






11 julho 2017

mu ‘in besseisso / a rimbaud




quando Rimbaud se tornou negreiro
e lançou sua rede
sobre a Etiópia
para caçar leões pretos
cisnes pretos
abandonou a poesia…
como era honesto aquele rapazinho…
mas muitos poetas
se tornaram traficantes de escravos,
usurários
e não abandonaram a poesia.
no palácio do sultão os seus poemas
viraram portas e janelas
e não abandonaram a poesia…
elogiaram,
receberam medalhas e títulos,
ouro, prata e taças de pedra
e não abandonaram a poesia…
a marca do gendarme
a pegada do gendarme estava nos seus poemas
e não abandonaram a poesia…
como era honesto Rimbaud…
como era honesto aquele rapazinho.




mu  ‘in besseisso
rosa do mundo
2001 poemas para o futuro
trad. adalberto alves
assírio & alvim
2001




10 julho 2017

valter hugo mãe / existe uma arritmia ténue




existe uma arritmia ténue
no coração de quem recusou
o amor de outrem, um coração
ténue que se sobrepõe ao que
já se tem


valter hugo mãe
três minutos antes de a maré encher
quasi
2000




09 julho 2017

fernando pessoa / cansa ser, sentir dói, pensar destrui.



Cansa ser, sentir dói, pensar destrui.
Alheia a nós, em nós e fora,
Rui a hora, e tudo nela rui.
Inutilmente a alma o chora.

De que serve? O que é que tem que servir?
Pálido esboço leve
Do sol de Inverno sobre meu leito a sorrir...
Vago sussurro breve.

Das pequenas vozes com que a manhã acorda,
Da fútil promessa do dia,
Morta ao nascer, na esperança longínqua e absurda
Em que a alma se fia.

1-1-1921


fernando pessoa
poesias inéditas (1919-1930)
ática
1956





08 julho 2017

joaquim manuel magalhães / por causa de photomaton & vox



Por causa de Photomaton & Vox, Assírio e Alvim, Lisboa, 1979



Herberto Helder,
Eu nunca tomei uma bica consigo. Nos seculares passeios do nosso adro é difícil tal prestidigitação. É verdade que tenho um certo susto das suas palavras. Deve ser o único português de quem diria tal coisa. As razões são curtas e julgo que se resumem a uma: você escreve assim.

Poucas vezes o enredo de um fio me faz perder entre os seus nós. As meadas grossas são coisas fáceis de jogar nos dedos. Mas aquelas que nem parecem para tecer, que vêm de um torvelinho onde o ar ainda não chegou, abrem um espaço cego onde as crateras confundem a inexperiência do olhar.

Eu tinha, como lhe mandei dizer uma vez, dezasseis anos. Vila Real era um castigo de que ninguém cresce, a menos que dê volta à vida. Havia uma pastelaria diante da Sé. Li A Colher na Boca. Você foi culpado de quase tudo. Sabotou a mágoa adolescente de alguns sonetos. A Judite Beatriz de Sousa nem podia imaginar que as aulas de Literatura eram nessa esplanada e não onde ela me dizia as coisas de maior fascínio que começava a ouvir.

É evidente que não se tratava de Nossa Senhora de Fátima. As aparições já haviam começado mais cedo, quase sempre nos intervalos das aulas e com gente que não ia querer ver-me de joelhos. Mal sabiam que não esperavam os desejosos por outra coisa. Mas, lembro-me de vez, quando cheguei às «Musas Cegas» deixei de saber o que fazer com as palavras. Você não devia existir.

Quero dizer, comecei a julgar que escrever era fazer como você, de tal ordem a mudança ou transfiguração foi radical. Foram centenas de poemas, nos anos da Faculdade, em que não havia mais ninguém, nenhuma outra linguagem capaz de ensinamento. Era a peste, o contágio mortal.

Os advérbios de modo, os pronomes possessivos desencadeadores das metáforas, o desregramento imaginístico de um onirismo agressivo, a raridade visual ocupavam o centro que tentava a sua capacidade de visão, donde me cresciam as palavras. O desencadeamento da beleza tem destas facas. Atingem um coração desprotegido de saberes. Calcam as poças de terra donde ele julga subir. Andei com os seus poemas por muitos amores, por mais desamores, pelo sequestro de quartos alugados, pela papalvice de muitos professores. Lembro-me que tinha por critério poético para respeitar alguém que gostasse do que você escrevia.

Porque sou do tempo em que você era odiado. Nos primeiros anos dos anos 60 você não era neo-realista e atacava-os. Isto é, não havia foices e martelos escondidos na covardia de algumas imagens que só os da célula ou os mais atentos entendiam. Nem falava das madrugadas futuras. Nem, acima de tudo, cumpria a retórica de sacristia e um alentejo qualquer. A sua cor era o negro, ouvia-o dizer por detrás de muitas frases e um dia, de trombas, no prefácio a Edmundo Bettencourt.

Diziam que você era um idealista. Eu zangava-me, eles não queriam saber. Um dia atiraram-me uma recusa definitiva: você trabalhava na Emissora. Fosse verdade ou mentira, trabalhavam assim. Contavam a qualidade dos versos pelos anos de prisão. Nem deixavam supor que houvesse outras prisões e que você cantava de um suplício onde eles talvez nunca pudessem sofrer.

Alguns deles, de uma bronquidão imbatível, acabaram ministros, secretários e outros cargos. Era vê-los, ainda hoje se vão vendo, embora os mais antigos lhes tivessem recuperado os cadeirotes. Basta olhar para a cara da maioria dessa geração, iguais aos que desalojaram, mais liberaizitos, mas também de olhos moles: ouve-se logo crepitar a roupa interior enxovalhada. De quem haviam de gostar senão dos que faziam palavras prontas para balada?

Fui descobrindo outras razões para estar consigo ao ouvi-lo declarar extremos que eu também sentia. Num questionário de outro Proust, que divertia as minhas tardes de cervejaria, vi que respondia quando quiseram saber o que pensava de Literatura Portuguesa: Agustina Bessa Luís. Mais nada. Isso bastava-me, nesses anos já distantes em que ainda ninguém a queria transformar em possível herdeira de Torga, para me confirmar tudo. Saber caminhar entre os escolhos era uma arte que também eu andava a aprender.

Fui saindo do «pesadelo» da sua escrita a muito custo. Voltei atrás muito devagar, graças a grandes montes de papel rasgado. Primeiro riscava o que lhe fosse semelhante, voltava ao princípio, descobria que não ficava nada. Só quando me despedi de si, consegui perceber que podia tentar com as palavras sons e sentidos que fossem meus.

Não fui só eu, comecei a ver depois. Você é culpado de mais epígonos do que ninguém. Poucos se poderão sentir tão mal ao ler imensos que se lhe seguiram. Gente da minha idade, outros mais novos do que eu, devem a si nunca terem conseguido ser melhores. Também se não fossem de você, valha a verdade, seriam pigmeus de outro. Deve sentir, melhor do que ninguém, a praga que desencadeou à sua volta. Quase cada livro de um novo que surgia, e se ficava só por esse livro, de certeza que lhe causava a zanga de se sentir por lá.

A poesia portuguesa que se lhe seguiu só era interessante quando não estava colada a si. Nenhum poeta português do pós-guerra precisou tanto de se ver fugido. Leia muitos desses que aparecem por aí, entre o pós-surrealista e o pós-beatnik, leia mesmo os que fizeram poesia de comício à custa de banalização de imagens e processos seus e diga-me se não é assim.

Poucos podem ter a honra de ter mais inimigos do que você. Inimigos como eu, a considerá-lo um dos maiores, mas a fazer tudo por causa disso, por o combater naquilo que me leva à escrita. Aliás você é dos poucos que não anda atrás dos mais novos para lhes «sacar» o que de melhor vão conseguindo propor. Inimigos como outros, da geração que o antecedia, mais de raiva, ultrapassados pelo que você fazia, ou na bovina ignorância da sua escrita até terem acordado tarde demais (exceptuo alguns, dentre desses de quem já tenho tentado falar aqui). Inimigos como ainda outros, calados, dos que surgiram consigo nos inícios desses anos 60, ou dos que estavam já na sua linha de escrita, porque sentiam o vazio a fazer-se à volta dos seus pés. Muitos andavam de alma revirada. Eu era muito novo e podia observá-los com eles a julgarem-se impunes. Tinham entrado numa de poema curtinho, tudo bem escolhido e recatado, fácil de ser entendido na Outra Banda. Dizia-me uma delas, que depois deixou crescer os versos: «Tem demasiados violinos e entrarem em demasiadas janelas.» Veja lá o mal que faz aos ansiosos terem de fechar as janelas e, nessa falta de ar, ouvirem os ditos só na grafonola.

Quando penso no um ou dois poetas da minha geração, sei que eles são bons porque não se lhe assemelham, quase tanto como por possuírem uma veemência própria a reivindicar. Quando penso nos da sua geração, penso que são maus porque não atingiram o centrodo tempo com a placidez do furacão em torno que você foi. Penso que, dos anos 60, só Ruy Belo pode competir consigo com o fôlego incomparável dos que ganham sem correr. Assim como penso que, dos livros que se seguiram à sua Colher na Boca, só Outro Nome de Gastão Cruz, poucos anos depois, e Crónica de João Miguel Fernandes Jorge, bastantes anos mais tarde, tocaram em algo de profundamente alterante e central entre os mais novos.

A maior homenagem que lhe quero prestar, porém, é esta: só consegui juntar verso para o ar livre quando soube, de certeza certa, que você não estava lá. Esse obscuro lugar, como você diria, tem percentagem de luta contra si. Ficou daí, talvez, esta barreira que nem a sangue sei como resolver: não sei falar de livros seus. Talvez seja esse susto de que falava ao princípio.

Por isso, sobre o seu Photomaton & Vox digo-lhe isto. E só acrescento uma certa surpresa por o ver referir americanos demasiado franceses, e ter lançado um piscar de olho cúmplice a um público fácil ao atirar-lhe com a Patti Smith. Mas que fará tal minúcia à grandeza persistente da sua deriva isto é, da sua «deambulação»?

E já agora, em troca de algumas das suas magníficas histórias juntadas neste livro, deixe-me contar-lhe uma que li em Otto Jespersen. «Um camponesa quem o padre perguntou que significado tinha para ele a palavra felicidade e que respondeu: qualquer coisa dentro de um porco, mas não sei explicar melhor o que é.»

A moral é: no meio da miséria institucional que cerca a nossa cultura, a prostituição das editoras comerciais e das outras que só se dedicam às obras completas dos vendáveis, desses autores que lhes aceitam fazer o jogo, do desprezo a que a máquina política votou a difusão séria de obras mais significativas ou de autores mais novos para promover a mediocridade dos que se deixam enredar nas suas teias partidárias dominantes – no meio desse «porco»que é o nosso mercado cultural, a maioria das nossas editoras, os programas literários, a «felicidade» é que possam ainda, aqui um, além outro, aparecer livros como o seu. E que existam figuras de recusa exemplar como a sua é.



joaquim manuel magalhães
os dois crepúsculos
sobre a poesia portuguesa
actual e outras crónicas
a regra do jogo
1981






07 julho 2017

fiama hasse pais brandão / epístola para os amados





Ainda vos amos, porque aqui não há só tempo
e o amor, no tempo, é tão intenso e absoluto,
que transborda do tempo para o não-presente.
Havendo tempo e não-tempo, eu vos confesso agora
que em parques ao poente ainda vos estou a amar.
E não que vos ofereça hoje alucinados versos,
mas porque do meu tempo sois donos, como os poemas
que eu escrevo do tempo para o não-tempo, sempre.



fiama hasse pais brandão
epístolas e memorandos (1996)
obra breve
poesia reunida
assírio & alvim
2017





06 julho 2017

antónio osório / entrar contigo




Entrar contigo
dentro das searas
e depois
trigo
sairmos da terra



antónio osório
o lugar do amor
a boca junta
gota de água
1981





05 julho 2017

jordi doce / jardim de inverno




No mais escuro deste jardim há alguém
com uma das mãos sobre os lábios que invoca
ou pelo menos aspira nomear este silêncio
atrás do qual passam nuvens e pó e pássaros

invisíveis ao olhar daquele que escuta,
inaudíveis como inaudível é, se escuto,
a passagem do vento entre os ramos de zimbro,
o ar que filtra o pouco ar de inverno.

Luz mínima. Sombras, silhuetas que se abraçam.
Faz como o frio. Regressa ao teu corpo.
Escuta lento o derivar do mundo.
Escuta como cresce o gelo e se interroga,

como tudo é espelho e a quietude do espelho.



jordi doce
poesia espanhola anos 90
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2000





04 julho 2017

lawrence ferlinghetti / a poesia como arte insurgente



(excerto)


Envio-te sinais por entre as chamas.

O Pólo Norte não está onde costumava estar.

O Destino Manifesto já não é manifesto.

A civilização está a autodestruir-se.

Némesis bate à porta.

Para que servem os poetas, numa época assim? Qual é a utilidade da poesia?

O estado do mundo pede à poesia que o salve. (Uma voz no deserto!)

Se queres ser um poeta, cria obras que consigam responder ao desafio de um tempo apocalíptico.

Tu és Whitman, tu és Poe, tu és Mark Twain, tu és Emily Dickinson e Edna St. Vincent Millay, tu és Neruda e Maiakovski e Pasolini, tu és americano ou não, tu podes conquistar os conquistadores com palavras.

Se queres ser um poeta, escreve jornais vivos. Sê um repórter no espaço sideral, e envia as tuas matérias para um supremo redactor-chefe que acredite na transparência total e tenha uma fraca tolerância a conversa fiada.

Se queres ser um poeta, experimenta todo o tipo de poéticas, gramáticas eróticas imperfeitas, religiões extáticas, efusões pagãs glossolálicas, discursos públicos bombásticos, rabiscos automáticos, percepções surrealistas, fluxos de consciência, sons encontrados, discursos e divagações – e cria a tua própria voz límbica, a tua própria voz secreta, a voz que te diz.

(…)




lawrence ferlinghetti
a poesia como arte insurgente
tradução de inês dias
relógio d´água
2016