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24 outubro 2016

ana hatherly / 463 tisanas



169

O que é digno e o que é indigno do homem pergunto enquanto caminho pelo corredor. Passo em frente duma janela e vejo a minha sombra projectada na parede. Então penso no logro mimético que representa a vassalidade à lei esse trânsito de acréscimo às reverberações de que se serve o crédito social para não abandonar as suas presas. Fim de citação.


ana hatherly
463 tisanas
quimera
2006



26 agosto 2016

ana hatherly / era uma vez duas serpentes



Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra. Um dia encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente. Quando cada uma devorou a outra não ficou nada. Esta história tradicional demonstra que se deve amar o próximo ou então ter muito cuidado com o que se come.


ana hatherly
39 tisanas
1969



05 agosto 2015

ana hatherly (8-5-1929 / 5-8-2015)



Um ritmo perdido...



Se uma pausa não é fim
e silêncio nâo é ausência,
se um ramo partido não mata uma árvore,
um amor que é perdido,será acabado?

um ouvido que escuta
uma alma que espera...
-uma onda desfeita
É ou já não era?

Nuvem solitária,
silenciosa e breve,
nuvem transparente,
desenho etéreo de anjo distraído...

nuvem,
esquecida em céu de esperança,
forma irreal de sonho interrompido..

nuvem,
luz e sombra,
forma e movimento,
fantasia breve de ânsia de infinito...

nuvem que foste
e já não és:
desejo formulado e incompreendido.




ana hatherly




25 fevereiro 2015

ana hatherly / 7 tisanas inéditas



nº 237 - Parcialmente, a santidade consiste na capacidade de praticar transgressões bem orientadas. Por exemplo: matando em nós os fantasmas tutelares. Sem ternura. É assim que se atinge a múltipla orfandade.

nº 238 - O que pensará uma formiga ao ser contemplada por uma mosca poisada na parede? Quanto mais se pensa no sofrimento mais se compreende que tudo é devido a um incomensurável não-saber.

nº 239 - Tudo está aqui para alguma coisa, para desempenhar um papel, uma missão, pensamos utilitariamente. Eu, gosto das portas. A porta entreaberta, por exemplo: irá fechar-se? irá abrir-se? dar passagem? Oh subtil porta que tão indiferentemente abres-fechas: nem sei se olho para dentro ou de dentro.

nº 240 - Os livros quando são lidos por leitores apaixonados, alegres soltam suas folhas coloridas pelos ares da mente, guardião involuntário em todas as ocasiões. Este é um discurso cuja antiguidade reconstituo ludicamente enquanto escondo a ferida do tempo.

nº 241 - Era uma vez uma pessoa que andava sempre com uma palavra debaixo da língua. Quando a tinha na ponta falava, dando pequenos estalos de prazer. Depois lambia os beiços gulosamente. Estamos aqui à espera de quê? Imagina-acção.

nº 242 - Vou de comboio. Penso no terror que nos habita, que nos segue como imensa ignorada cauda. Chegando à estação vejo o meu rosto reflectido no vidro da janela. Olho fixamente o meu próprio rosto.

nº 243 - Ia pela rua fora, como de costume, quando vejo uma porta entreaberta que dava para um corredor muito comprido. Entro. No fundo há uma porta fechada. Bato à porta. Uma voz pergunta: quem é? Dou eu, digo. Eu quem? respondem. E não abrem a porta.


ana hatherly
poesia do mundo/2
edições afrontamento
1998




09 dezembro 2013

ana hatherly / que é voar?



Que é voar?
É só subir no ar,
levantar da terra o corpo,os pés?
Isso é que é voar?
Não.

Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre, leve, independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não -vivência

E isso é voar?
Não.

Voar é humano
é transitório, momentâneo...

Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.



ana hatherly



15 setembro 2013

ana hatherly / a varanda de julieta



Em Verona
a casa da Julieta
é pequena, escura, insignificante.
O edifício está enegrecido
só a varanda de pedra foi limpa:
destaca-se como um grito branco
numa boca escura.

Tudo é um pouco de menos
nesta fachada demasiado obscura
agora brutalmente iluminada
pela luz fluorescente
duma loja de design
colocada mesmo em frente
no mesmo pátio
no mesmo átrio mítico.

Fui procurar
a memória da história
e encontrei a tecnologia
gritando
contra o endurecido mito
do sentimento
petrificado no tempo.

Tinha esquecido que o amor
é coisa mental
e que na superfície do real
é como um grito branco
numa boca escura.

  

ana hatherly



31 agosto 2012

ana hatherly / wer abend sind sie, sag mir, die fahrenden





Os errantes
os fugazes viajantes
que nós somos
buscando sempre a vibração perdida
diariamente caem
da árvore da memória
onde brilha o nome
o melancólico ansiado barco

Oh que percurso essencial
descrevem os errantes
na sua busca em queda abismados
sobre si mesmos voltados
percorrendo
a arriscada síntese do exílio!

E tu
vontade insatisfeita
onde encontrarás
os frutos da árvore do querer
as alegrias do estar e do ser
que nos rompem o peito
de tanto as ansiar?

A rosa do olhar
que na procura reverdece
a todo o instante esquece
o som da queda
e escuta só
o tilintar da sorte
no inventado bolso da esperança
que nos empurra
impele
lisonjeia
num breve sorriso captado
num furtivo afago
ilusão de ternura

Mas logo logo
algo nos arranca o curativo
nos retira o tapete mágico do repouso
nos remete
para a nossa condição de feridos atingidos

E na busca heróica
do instante transfigurado
o activo martírio de prosseguir
faz de nós
eternos estrangeiros mal-amados
desamparados
peregrinos recém-chegados





ana hatherly
rilkeana
assírio & alvim
1999