30 novembro 2016

luiza neto jorge / recanto 18



Desses «em guerra» vos falo falo dos que me seguem
não os chamámos seguiram-nos
todos descremos e rimos por dinheiro não trocámos
projectados para a morte não traímos

Eu e ele somos a espaços
improváveis veículos (eu e vós)
mestres voadores numa convulsão de cigarros mestres
reptantes redemoinho meu ressaca viva oculto vinho
oculto amor

o nosso vedado o mundo tão exíguo e o dos outros
(luzes água planetas mecanismos ambíguos) mais
exíguo

Amamos o mundo (quem?) o tempo (qual?) a luz (quando?)
a treva (onde?) tudo (?) todos (?!)
trepidantes trémulos
com a ajuda mental de partículas
de merda

ou simples estados, frenesis, convulsivos, objectos,
alibis, a pique, patológicos,
risos, redundâncias, aços, lascados, alarmados,

conhecemos – além de nós, reais –
os reis, os resíduos, o dente liliputiano
no sorriso o arcanjo.



luiza  neto jorge
dezanove recantos
1970





29 novembro 2016

yvette centeno / algol



Primeiro pegarei
nas tuas mãos
procurando os sinais
de difícil leitura:
cefeidas
supernovas
planetas exteriores
em que pulsa
a memória
em que o destino
quebra
e a morte se introduz
como estrutura.



yvette centeno
a oriente
edit. presença
1998




28 novembro 2016

sylvia plath / carta em novembro



Amor, o mundo
De repente muda, muda de cor. A luz da rua
Perpassa por entre as vagens do laburno
Que lembram a cauda dos ratos, às nove da manhã.
É o Árctico.

Este pequeno círculo
Negro, com estas trigueiras e sedosas ervas – cabelo de bebé.
Há uma cor verde no ar,
Suave, voluptuosa,
Conforta-me com amor.

Estou corada e quente.
Se calhar isto é absurdo,
Sou tão estupidamente feliz,
As minhas galochas
Dão passos ruidosos, atravessam o vermelho maravilhoso.

É a minha propriedade.
Duas vezes ao dia percorro-a, cheirando-lhe
O bárbaro azevinho em conchas
De verdete, ferro puro,

E a parede de velhos cadáveres.
Amo-os.
Amo-os como à história.
As maçãs são douradas,
Imagine-se –
As minhas setenta árvores
A prender as suas bagas vermelho-douradas
Num espesso e mortal caldo cinzento,
Com um milhão
De folhas de metal douradas e sem vida.

Ó amor, Ó celibato.
Mais ninguém senão eu
Caminha com água pela cintura.
As insubstituíveis
Riquezas sangram e afundam-se, as bocas das Termópilas.



sylvia plath
ariel
trad. maria fernanda borges
relógio d´ água
1996




27 novembro 2016

josé de almada negreiros / luis, o poeta salva a nado o poema



Era uma vez
um português
de Portugal.

O nome Luís
há-de bastar
toda a nação
ouviu falar.

Estala a guerra
e Portugal
chama Luís
para embarcar.

Na guerra andou
a guerrear
e perde um olho
por Portugal.

Livre da morte
pôs-se a contar
o que sabia
de Portugal.

Dias e dias
grande pensar
juntou Luís
a recordar.
Ficou um livro
ao terminar.

muito importante
para estudar:
Ia num barco
ia no mar
e a tormenta
vá d'estalar.

Mais do que a vida
há-de guardar
o barco a pique
Luís a nadar.

Fora da água
um braço no ar
na mão o livro
há-de salvar.

Nada que nada
sempre a nadar
livro perdido
no alto mar.

Mar ignorante
que queres roubar?
A minha vida
ou este cantar?
A vida é minha
ta posso dar
mas este livro
há-de ficar.

Estas palavras
hão-de durar
por minha vida
quero jurar.
Tira-me as forças
podes matar
a minha alma
sabe voar.

Sou português
de Portugal
depois de morto
não vou mudar.

Sou português
de Portugal
acaba a vida
e sigo igual.

Meu corpo é Terra
de Portugal
e morto é ilha
no alto mar.

Há portugueses
a navegar
por sobre as ondas
me hão-de achar.

A vida morta
aqui a boiar
mas não o livro
se há-de molhar.

Estas palavras
vão alegrar
a minha gente
de um só pensar.

À nossa terra
irão parar
lá toda a gente
há-de gostar.

Só uma coisa
vão olvidar
o seu autor
aqui a nadar.

É fado nosso
é nacional
não há portugueses
há Portugal.

Saudades tenho
mil e sem par
saudade é vida
sem se lograr.

A minha vida
vai acabar
mas estes versos
hão-de gravar.

O livro é este
é este o canto
assim se pensa
em Portugal.

Depois de pronto
faltava dar
a minha vida
para o salvar.



josé de almada negreiros
poesia
estampa
1971



26 novembro 2016

herberto helder / fonte



I

Ela é a fonte. Eu posso saber que é
a grande fonte
em que todos pensaram. Quando no campo
se procurava o trevo, ou em silêncio
se esperava a noite,
ou se ouvia algures na paz da terra
o urdir do tempo ---
cada um pensava na fonte. Era um manar
secreto e pacífico.
Uma coisa milagrosa que acontecia
ocultamente.

Ninguém falava dela, porque
era imensa. Mas todos a sabiam
como a teta. Como o odre.
Algo sorria dentro de nós.

Minhas irmãs faziam-se mulheres
suavemente. Meu pai lia.
Sorria dentro de mim uma aceitação
do trevo, uma descoberta muito casta.
Era a fonte.

Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.
A lua formava-se
com uma ponta subtil de ferocidade,
e a maçã tomava um princípio
de esplendor.


Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento
perdeu-se e renasceu.
Hoje sei permanentemente que ela
é a fonte.



herberto helder
poesia toda
assírio & alvim
1996






25 novembro 2016

ruy belo / terrível horizonte




Olhai agora ao cair quotidiano da tarde
a linha humana dessa fronte
Aí qualquer coisa começa
Não há na natureza à volta tão terrível horizonte
nem nada que se pareça.



ruy belo
apresentação
todos os poemas I
assírio & alvim
2004





24 novembro 2016

manuel antónio pina / o medo




Ninguém me roubará algumas coisas,
nem acerca delas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.

É a sua morte que eu vivo eternamente
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.

Serei capaz
de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?




manuel antónio pina
nenhum sítio
algo parecido com isto, da mesma substância
poesia reunida 1974-1992
afrontamento
1992




23 novembro 2016

carlos poças falcão / a lamentação



Há uma lamentação nas coisas imperfeitas
como se amassem, como se recordassem.
Tudo pede um deus. E o lamento
é a própria imperfeição. A terra é fulgurante,
macera as criaturas, dá-lhes alimento,
venenos, temperaturas. E sobre os arenitos
depõe restos de chuva, as erosões gravadas
dos apagamentos. A dor deve doer
e os animais agitam-se, movem a cabeça
ao mais leve chamamento. Mas não há chamamento.
Apenas o sussurro de regresso ao horizonte:
um álamo negro, o deus,, a voz humana.



carlos poças falcão
movimento e repouso
arte nenhuma (poesia 1987-2012)
opera omnia
2012




22 novembro 2016

carlos de oliveira / nevoeiro



A cidade caía
casa a casa
do céu sobre sobre as colinas,
construída de cima para baixo
por chuvas e neblinas,
encontrava
a outra cidade que subia
do chão com o luar
das janelas acesas
e no ar
o choque as destruía
silenciosamente,
de modo que se via
apenas a cidade inexistente.




carlos de oliveira
sobre o lado esquerdo
trabalho poético
livraria sá da costa editora
1998



21 novembro 2016

jorge luís borges / g. a.bürger




Nunca hei-de entender
por que me afectam desta maneira as coisas
que aconteceram a Bürger
(as suas duas datas estão na enciclopédia)
numa das cidades da planície
junto ao rio que tem uma só margem
onde crescem palmeiras, não pinhais.
Tal como todos os homens,
disse e ouviu mentiras,
foi traído e foi traidor,
agonizou muitas vezes por amor
e após uma noite de insónia
viu os cinzentos cristais da alba,
mas mereceu a grande voz de Shakespeare
(na qual estão as outras)
e a de Angelus Silesius de Breslau
e com falso descuido limou alguns versos
ao estilo da sua época.
Sabia que o presente não é mais
que uma fugaz partícula do passado
e que somos feitos de esquecimento:
sabedoria tão inútil
como os corolários de Espinosa
ou as magias do medo.
Na cidade, junto ao rio imóvel,
uns dois mil anos depois da morte de um deus
(a história que menciono é antiga),
Bürger está sozinho e agora
precisamente agora, lima uns versos.


jorge luís borges
obra completas 1975-1985 vol. III
história da noite   (1977)
trad. fernando pinto do amaral
editorial teorema
1998





20 novembro 2016

fernando pessoa / ensaio sobre poética



Professor Trochee
ENSAIO SOBRE POÉTICA - T
ENSAIO SOBRE POÉTICA

Escrito para edificação e para a instrução dos pretensos poetas.

Quando penso no número abundante de rapazes e no superabundante número de mulheres jovens no presente século, quando vejo a natural e consequente profusão de atracções mútuas, sempre que cogito no grande número de composições poéticas que dali emanam, sempre que o meu pensamento se debruça sobre a formação demente e caótica destas efusões, fico perfeitamente convencido que, se escrever um ensaio sobre a arte poética, estarei contribuindo grandemente para o bem público.

Contudo, ao considerar a melhor e mais prática maneira de começar tão importante debate, concluí sensatamente que uma exposição directa das regras da poética era a maneira como eu devia apresentar o assunto ao leitor. Achei inútil e inapropriado referir-me aos antigos críticos de arte, dado que os críticos modernos são mais agradáveis de citar e disseram tudo o que há a dizer sobre o assunto, e mesmo um pouco mais — o que é da sua autoria, onde são originais. Ao pôr de parte os críticos da antiguidade tenho duas boas razões, a segunda das quais é que, mesmo que soubesse alguma coisa sobre eles, não gostaria de impingir a minha ciência escolar ao leitor. Começo então a minha exposição.

Primeiro penso que seria oportuno chamar a atenção do pretenso poeta para um facto que não é habitualmente considerado e que ainda é digno de consideração. Espero escapar ao ridículo universal ao afirmar que, teoricamente, a poesia é susceptível de escansão. Gostaria, porém, que ficasse claro que concordo com o Sr. A. B. quando afirma que a escansão estrita não é de todo necessária para o sucesso e mesmo para o mérito de uma composição poética. E creio não parecer excessivamente pedante se procurar no armazém do Tempo, para citar como autoridade, algumas das obras de um certo William Shakespeare ou Shakspere que viveu há alguns séculos e que desfrutava de alguma reputação como dramaturgo. Esta pessoa tinha por hábito cortar, ou acrescentar, uma ou mais sílabas nos versos das suas numerosas produções, e se era inteiramente permitido naquela época de beleza quebrar as regras do bom senso artístico e imitar algum obscuro escriba, ousarei recomendar ao principiante o prazer desta liberdade poética. Não que o aconselhe a acrescentar quaisquer sílabas aos seus versos, mas a subtracção de algumas é muitas vezes conveniente e desejável. Posso ainda recomendar que, por esta mesma regra limitativa, tendo o jovem poeta cortado algumas sílabas ao seu poema, prossiga com o mesmo método e corte as restantes sílabas, embora possa não alcançar qualquer espécie de popularidade, terá todavia revelado um extraordinário senso-comum poético.

Posso também explicar aqui que o meu método para a formação de regras que estou a expor é o melhor. Vejo e penso nos escritos dos poetas modernos, e previno o leitor para fazer como eu fiz. Porém, se recomendo ao pretenso poeta que não se preocupe, na prática, com a escansão, é porque descobri ser isto uma regra e uma condição nos poemas de hoje. Nada como a mais cuidadosa consideração e o mais honesto apego a um modelo para ser usado por um aprendiz na arte. Em todos os casos, podem confiar em mim para vos dar o melhor método e as melhores regras.

Abordo o assunto da rima com um grande receio em vez de proferir algumas observações que poderiam parecer demasiado ortodoxas, quebrarei rudemente uma das regras mais obrigatórias da poesia moderna. Sou forçado a concordar com o Sr. C. D. quando diz que o ritmo não deve ser muito evidente em qualquer poema, embora este possa ser chamado rimado e os numerosos poetas modernos que exemplificam este preceito têm a minha inteira aprovação. A poesia devia encorajar o pensamento e apelar para a reflexão: nada melhor que o prazer do crítico quando, depois de um minuto de dissecação da composição, percebe, primeiro, que é poesia e não prosa, segundo, após um grande esforço, após um profundo exame, que é rimado e não branco.

Tais belezas poéticas, serão, no entanto, visíveis só ao crítico experimentado, porque o homem de gosto poético comum é muitas vezes, quando chamado a criticar um poema, colocado numa situação indesejável. Por exemplo, há cerca de uma semana, um amigo meu pediu-me a opinião sobre um poema que tinha escrito. Entregou-me um papel. Eu fiz algumas e vãs tentativas para compreender a efusão, mas rapidamente as corrigi invertendo a posição do papel para conseguir captar um melhor sentido. Felizmente como me fora antecipadamente dito que o papel que estava diante de mim tinha um poema, comecei imediatamente, sem qualquer precaução, a tecer copiosos elogios à excelência do verso branco. Corado de indignação, o meu amigo disse que a sua composição era rimada, e, além disso, que se tratava dos chamados versos spenserianos. Não muito convencido pela sua impúdica invenção de um nome (como se Spencer alguma vez tivesse escrito poesia!), continuei a examinar a composição que tinha na frente mas, não conseguindo sequer aproximar-me do sentido, limitei-me a elogiá-la, comentando particularmente a originalidade de tratamento. Ao devolver o papel ao meu amigo, este passou-lhe uma vista de olhos para me mostrar algo de especial, o seu rosto nublou-se e pareceu intrigado.

«Raios», disse ele, «dei-lhe o papel errado. Isto é a conta do meu alfaiate!»

Que este triste episódio sirva de lição ao crítico de poesia.

Nessa destruição do sentimento poético, o verso branco, só tocarei ao de leve; mas como vários amigos meus me têm repetidamente pedido a fórmula ou receita para a sua produção, dou neste momento a conhecer as directivas àqueles dos meus leitores que tiveram a coragem de me acompanhar até aqui. Na verdade, no campo da poesia, não há nada mais fácil do que produzir verso branco.

A primeira coisa a fazer é arranjar tinta, papel e uma caneta; e então escrever normalmente, em linguagem corrente tal como se fala (o que tecnicamente se chama prosa) o que se quer dizer; ou, se for esperto, o que estiver a pensar. O passo seguinte é lançar mão de uma régua graduada em polegadas ou centímetros, e marcar, com um traço, a efusão da sua prosa, cortando quatro polegadas ou dez centímetros no comprimento: eis as linhas da sua composição em verso branco. No caso de a linha não ficar certa, uns «Alases», ou «Ohs» ou «Ahs», ou uma introdução de invocação às Musas preencherão o espaço exigido. Esta é a receita moderna. Claro que não sei directamente se este é o método que os poetas modernos utilizam. Mas, ao examinar os seus poemas, descobri que a evidência interna é conclusiva, apontando sempre para tal método de composição.

Quanto à escansão do verso branco, não se preocupe com isso; primeiro, porque seja de que espécie for, os críticos vão encontrar nele os erros mais ultrajantes; mas, se com o tempo se tornar famoso, os mesmos senhores justificarão tudo o que fizer; e ficará surpreendido com as coisas que simbolizou, insinuou, quis dizer.

Por último, volto a insistir com o leitor que, nesta era do automóvel e da arte pela arte, não há qualquer restrição ao comprimento da linha em poesia. Podem-se escrever linhas de duas, três, cinco, dez, vinte, trinta sílabas ou mais que não tem importância nenhuma; só quando as linhas de um poema contêm mais do que um certo número de sílabas, essa composição é geralmente conhecida por prosa. Esta dificuldade de se saber qual é o número de sílabas que estabelece o limite entre poesia e prosa faz com que seja modernamente impossível distinguir o que é uma e o que é a outra. A distinção interna é, claro está, impossível. Depois de algum estudo, descobri que pode ser geralmente considerada poesia quando cada linha começa com letra maiúscula. Se o leitor conseguir descobrir outra diferença, ficaria muito grato que ma desse a conhecer.
s.d.



fernando pessoa
pessoa por conhecer - textos para um novo mapa.
teresa rita lopes
estampa
1990




19 novembro 2016

josé gomes ferreira / depois vieste tu



XVIII

               (Experiência.)


Depois vieste tu
(tu quem?)
e meteste nos sonhos, no mel, nos cravos
as pedras que piso..
E apedrejaste a morte
com o teu sorriso.


josé gomes ferreira
poesia V
memória-I 1957-1958
portugália
1973