28 março 2005

quatro estações #crónicas de inverno

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19:40


o relógio da estação marcava
dezanove e quarenta

um alto e entroncado homem
sorria de um dos lados da linha

todos os dias

do outro sorria uma mulher
com os seus dezanove
e quarenta anos

a reter, os brincos da mulher
estridentes de silêncio

e as botas dele
invulgarmente mudas

a dilecção dela
eram homens pontuais

a dele mulheres
sorridentes ao silêncio

dia dezanove de um mês
invernoso
do ano de quarenta

de um lado da linha
não havia vislumbre
de mulher ou homem

e do outro
também não



nuno travanca

23 março 2005

Johann Sebastian Bach (1685-1750)

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O teatro das paixões

"A partir das primeiras manifestações musicais medievais, o relato da Paixão está estreitamente ligado a uma ideia de representação (dramas litúrgicos, representações sacras, ofícios dramáticos) frequentemente sugerida pela cenografia das monumentais catedrais góticas. Por outro lado, como testemunham inúmeros quadros e esculturas (pensemos sobretudo nos que enfeitam os altares-mor e as capelas das igrejas do Norte da Europa), o tema da Paixão sugere imediatas conotações teatrais: para a liturgia católica, nos ritos de Sexta-feira e de Sábado Santos, assim como do Caminho da Cruz, além das celebrações populares da Semana Santa. Em terra protestante, sob o estímulo de uma religião que punha em primeiro plano a participação colectiva na oração, a evocação da Paixão manteve o sentido de ‘representação”, de teatro. Talvez o teatro musical alemão, do qual se considera que os Singspiel são os seus primeiros exemplos, não se tenha desenvolvido antes porque tinha o suficiente com as paixões: a transferência dos modos melodramáticos nestas partituras, que depois de Bach se torna hábito, parece confirmá-lo."

In Clássica vol. I, Edições Orbis, Sa 1983


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St Matthew Passion (1727) BWV244

Choir and Orchestra
Composer: Johann Sebastian Bach
Conductor: Philippe Herreweghe
Performer: Ian Bostridge, Andreas Scholl, et al.
Ensemble: Dietrich Henschel
Label: Harmonia Mundi
Catalog: #951676
Audio CD (November 16, 1999)
Number of Discs: 4
ASIN: B00002R0ZL

22 março 2005

um poema de: Lawrence Ferlinghetti



Café Notre Dame


Uma espécie de trauma sexual
prende um casal abismado
Ele está segurando as duas mãos dela
nas suas
Ela está beijando as mãos dele
Estão olhando-se
nos olhos
de muito perto
Ela tem um casaco de peles
feito duma centena de coelhos correndo
Ele
tem um casaco clássico sombrio
e calças cinza-de-pardo
Agora estão a examinar as palmas
das mãos um do outro
como se fossem mapas de Paris
ou do mundo
como se estivessem à procura do Metro
que os levasse juntos
através dos caminhos subterrâneos
através das «estações do desejo»
até ao terminal do amor
até às portas da cidade-luz
É um caso sem saída
e estão perdidos
nas linhas cruzadas
das suas palmas enlaçadas
suas linhas de cabeça e linhas de coração
suas linhas de sorte e linhas de vida
ilegíveis e misturadas
no mons veneris
da sua paixão




Lawrence Ferlinghetti
In “A boca da verdade”, Antologia Portuguesa
Trad. André e Isabelle Lima
1986






18 março 2005

quatro estações #crónicas de inverno

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trinity park, queen street west


a ave



a ave quadrangular que me povoa os dias sem chuva
me arrasta pelos desertos sem principezinho
nem raposa vermelha
me devora o pescoço em haustos de carnívoro
e o fígado fere na sua fome
insaciável


a ave que ainda não derrotei nos meus pesadelos
de habitante único desta imensa ilha
chamada solidão


esta ave é o meu único companheiro
de longas penas azuis do céu
de garras de prata olhos de negro diamante


com ela subsisto morrendo
sem ela não existo





m. f. s.


17 março 2005

09 março 2005

quatro estações #crónicas de inverno



Jardim no Inverno



Num Jardim morto, aqui...
Jazem feias massas de cores,
Imobilizado permaneço enfim,
Ó Jardim onde passeavam amores...

Aqui, onde o frio me abraça,
Do tempo ainda banhado em dureza,
Mas ali no banco vazio sem graça,
Onde a paixão mostrava a sua raça

Sob o olhar belo desta natureza...
Neste jardim agora o Inverno é triste,
Quase a nascer está de certeza,
Sonho do amor que não existe...

Este jardim em mim agora,
Causa estranheza...




Artur Rebelo